Vitória Figueiredo, 17 anos, oriunda de Viseu, Yasmin Dias e Nelson Santos, ambos com 16 anos e vindos, respetivamente, do Porto e de Gondomar, foram os três jovens estudantes do secundário que, entre 31 de agosto e 5 de setembro, vestiram a bata de investigadores na Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto (FCNAUP), no âmbito da Escola de Ciências da Vida e da Saúde (ECVS) da 20.ª edição da Universidade Júnior.
Com o tema “Fruta inteira ou triturada? Do HPLC à glicemia, seguindo o percurso dos açúcares”, o projeto coordenado pelas docentes e investigadoras da FCNAUP, Olga Viegas e Susana Guerreiro, pretendeu avaliar de que forma alguns frutos sazonais e mediterrânicos – neste caso uvas e figos, mas também framboesas – podem influenciar a resposta glicémica.
“É um estudo muito exploratório, dado o contexto e janela temporal, no qual fomos atrás de uma hipótese que tem vindo a ser apresentada em alguns estudos relativamente recentes: até que ponto alguns frutos, na forma em que se apresentam e como são processados, podem afetar a resposta glicémica”, explica a investigadora Olga Viegas.
O projeto revelou “uma ligeira tendência para a diminuição [da resposta pós-prandial glicémica] quando se ingere na forma triturada a uva com o figo ou com a framboesa. Mas a principal observação foi a diferença na resposta individual entre os voluntários, nem sempre no mesmo sentido, pelo que reforça a necessidade de um estudo com uma amostra maior que permita obter conclusões com robustez científica”, aponta a docente.
Figos, uvas e framboesas foram os frutos selecionados para o projeto de investigação. (Foto: DR)
Ao longo de uma semana, os três estudantes, a frequentarem o 10.º e 11.º anos de escolaridade, conheceram sobretudo como se desenvolve um projeto num laboratório de investigação. Na FCNAUP, aprenderam “a quantificar, a preparar as porções [dos frutos] a dar a tomar aos seus voluntários, registando ponto por ponto na curva glicémica o comportamento dos açúcares após a entrada no organismo”, acrescenta Olga Viegas.
“Os estudantes viram que há uma metodologia científica que tem de ser executada”, reforça Susana Guerreiro. “A fruta foi selecionada, pesada, fizeram processos de extração química, determinações analíticas de compostos que existem nos alimentos e, com base nesses dados, prepararam uma ingestão equilibrada e quantificada dos alimentos que permitisse fazer as comparações”, exemplifica a docente e investigadora.
Futuros médicos ou nutricionistas?
Antes de integrarem este projeto de investigação na FCNAUP, tanto Vitória, como Yasmin e Nelson, tinham em comum o sonho de seguirem o curso de Medicina. No entanto, o contacto com as Ciências da Nutrição mostrou-lhes outras possibilidades na área da saúde.
“Fiquei a saber que a nutrição não são só aconselhamentos, há todo o universo de uma componente laboratorial onde se fazem experiências. Os bastidores são muito mais complexos do que parecem e a profissão de nutricionista deve ser muito mais valorizada”, salientou Nelson Santos que se entusiasmou com o HPLC, um equipamento laboratorial que serve para separar, identificar e quantificar os componentes de uma mistura química.
Vitória Figueiredo, Yasmin Dias e Nelson Santos num dos laboratórios da FCNAUP. / Foto: DR
No final da semana, também as outras duas jovens investigadoras confessavam ter descoberto um mundo novo. “Não fazia ideia de que a Nutrição tinha tanta investigação, laboratório e era tão pormenorizada”, confessou Vitória, que participa pela segunda vez na ECVS.
“Foi uma semana fantástica. Não tinha metade das noções que agora tenho. A parte de Medicina que eu quero seguir, reflete-se muito na Nutrição”, sublinhou Yasmin.
“Sejam curiosos e gostem de saber”
Entre 31 de agosto e 5 de setembro, a 20.ª edição da Escola de Ciências da Vida e da Saúde (ECVS) reuniu 49 estudantes do ensino secundário oriundos de todo o país, de Trás-os-Montes ao Algarve (Vila Real, Porto, Guimarães, Fafe, Famalicão, Viseu, Coimbra, Covilhã, Fundão, Alcanena, Lisboa, Sintra, Faro, Portimão) e incluiu uma luso descendente a viver em França.
Para além da FCNAUP, a ECVS decorreu noutras faculdades da U.Porto ligadas à saúde, como a Faculdade de Medicina (FMUP), Faculdade de Medicina Dentária (FMDUP), Faculdade de Farmácia (FFUP), Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), Faculdade de Desporto (FADEUP) e o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S).
Os três estudantes com os respetivos diplomas na sessão de encerramento que decorreu no Edifício Abel Salazar. (Foto: DR)
Uma das mensagens deixadas aos estudantes passou pela necessidade de trabalhar em grupo. “A qualidade de um projeto não depende da casa onde está, mas do grupo que o forma. Nunca pensem que podem fazer investigação individualmente”, destacou Pedro Graça, diretor da ECVS e da FCNAUP, durante a cerimónia de abertura, congratulando-se com “o aparecimento de projetos novos” a cada edição.
“A nossa aprendizagem é um caminho. Sejam curiosos e gostem de saber”, reforçou Ana Paula Pêgo, Vice-Reitora para a Investigação e Valorização do Conhecimento da U Porto, na mesma ocasião.
Os 19 pequenos projetos de investigação envolveram grupos multidisciplinares – entre docentes e investigadores de cada faculdade – em diferentes temáticas: “Ação antimicrobiana da luz azul”, “Obesidade e tecido adiposo”, “Alterações climáticas e saúde pública: Bactérias emergentes em águas balneares”, “Quando o coração falha: Do laboratório à clínica”, “Saúde Digital: o futuro na palma da tua mão” ou, entre outras, “Anatomia de um Desenho e Fotografia”.
A sessão de encerramento da ECVS decorreu no dia 5 de setembro, no Edifício Abel Salazar, onde a cerca de meia centena de estudantes/jovens investigadores apresentou um resumo dos seus projetos à comunidade científica.