Opinião
Inteligência artificial candidata a autarca nos EUA e a deputado no Reino Unido
Dois candidatos prometem colocar todas as suas decisões nas mãos de chatbots de inteligência artificial se forem eleitos. Mas, para já, enfrentam questões éticas e legais que podem afastá-los.
Victor Miller, residente na cidade de Cheyenne, no estado norte-americano do Wyoming, anunciou a sua candidatura ao cargo de mayor com uma promessa eleitoral radical: não tomar qualquer decisão pessoalmente. Em vez disso, Miller pretende delegar todas as suas funções a um chatbot de inteligência artificial que ele próprio desenvolveu. Esta decisão insólita coloca a tecnologia no centro da administração pública, prometendo uma revolução no modo como as cidades podem ser geridas.
O chatbot, denominado VIC (Virtual Integrated Citizen, ou Cidadão Virtualmente Integrado), será o verdadeiro decisor. Miller, nas suas palavras, será apenas um “fantoche de carne e osso”, cuja única função será assinar documentos e marcar presença nas reuniões. O objetivo de Miller é demonstrar a capacidade da inteligência artificial de tomar decisões racionais e eficientes, sem influências pessoais ou políticas.
Simultaneamente, no Reino Unido, um candidato ao parlamento britânico adotou uma abordagem semelhante. Esta candidatura visa testar os limites da tecnologia e a sua aplicação na política, mas enfrenta uma série de questões éticas e legais. A substituição de decisões humanas por algoritmos de inteligência artificial levanta preocupações sobre responsabilidade, transparência e a própria essência da democracia.
A candidatura de Victor Miller a mayor de Cheyenne e de um candidato não identificado ao parlamento britânico marca um momento decisivo na interseção entre tecnologia e política. O uso de inteligência artificial (IA) como principal decisor em funções governamentais é, sem dúvida, uma inovação audaciosa, mas traz consigo um debate profundo sobre o futuro da governança e o papel da tecnologia na nossa sociedade.
A promessa de Miller, de ceder todas as decisões a um chatbot, pode parecer uma manobra de marketing ou um experimento social, mas toca em questões centrais sobre a eficiência e a imparcialidade na política. A inteligência artificial pode, em teoria, analisar dados de forma mais objetiva e tomar decisões baseadas em lógica e evidência, livre de preconceitos e pressões políticas. Isto poderia potencialmente resolver alguns dos problemas crónicos da política moderna, como a corrupção e a parcialidade.
No entanto, esta abordagem não está isenta de críticas. Em primeiro lugar, há questões legais. A quem se atribui a responsabilidade por uma decisão errada tomada por um chatbot? Quem responde pelas consequências de uma ação ou omissão? A legislação atual, tanto nos EUA como no Reino Unido, não está preparada para lidar com estas questões. Além disso, a falta de transparência no funcionamento dos algoritmos de IA pode ser uma barreira significativa. Sem uma compreensão clara de como as decisões são tomadas, a confiança pública na IA pode ser baixa.
Eticamente, a utilização de IA na política também é questionável. A democracia baseia-se no princípio de que os eleitos representam a vontade do povo. Substituir humanos por máquinas no processo de decisão pode desumanizar a política e afastar os cidadãos dos processos democráticos. A empatia, a compreensão e a capacidade de julgamento moral são qualidades intrinsecamente humanas que, até ao momento, a IA não consegue replicar.
Apesar das incertezas e dos desafios, é inegável que a inteligência artificial está a moldar o futuro de várias áreas, incluindo a política. A candidatura de Miller e do político britânico é um sinal de que estamos a entrar numa nova era, onde a tecnologia e a governança se encontram de maneiras antes inimagináveis. Este é apenas o começo de um debate que, sem dúvida, se tornará cada vez mais relevante à medida que a tecnologia avança.
Em conclusão, a aplicação da IA na política oferece tanto oportunidades quanto riscos. Cabe a nós, como sociedade, decidir como equilibrar estas forças, garantindo que a tecnologia serve o bem público sem comprometer os valores fundamentais da democracia e da responsabilidade.
Agricultura
O acordo UE–Mercosul e o silêncio cúmplice que ameaça a agricultura portuguesa

Opinião: Carlos Papafina
Há acordos que se anunciam como oportunidades estratégicas e acabam por revelar-se armadilhas silenciosas. O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul é um desses casos. Apresentado como um triunfo diplomático, um gesto de abertura ao mundo e uma jogada geopolítica inteligente, este acordo é, na realidade, um sério risco para a agricultura europeia — e, em particular, para a agricultura portuguesa. Mais inquietante ainda do que o conteúdo do acordo é o silêncio quase absoluto de quem deveria estar na linha da frente da sua contestação.
Portugal assiste, em surdina, a um processo que pode comprometer décadas de esforço na construção de um modelo agrícola baseado na qualidade, na proximidade, na sustentabilidade e na coesão territorial. Enquanto noutros países europeus os agricultores protestam, bloqueiam estradas e forçam o debate político, em Portugal reina uma estranha calma institucional. Um silêncio que não é neutro: é cúmplice.
Concorrência desleal mascarada de livre comércio
O princípio do acordo é simples e brutal: abrir o mercado europeu a produtos agrícolas provenientes do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai — países com escalas de produção incomparáveis às europeias, custos de contexto muito mais baixos e regras ambientais, sanitárias e laborais significativamente menos exigentes.
Comparar um agricultor português, sujeito à Política Agrícola Comum, a normas ambientais rigorosas, a custos elevados de energia, a exigências burocráticas crescentes, com um grande produtor sul-americano é uma ficção económica. Não há concorrência justa quando os pontos de partida são estruturalmente desiguais.
A carne bovina, os cereais, o açúcar, o etanol ou a soja produzidos no Mercosul entrarão na Europa a preços que os produtores europeus simplesmente não conseguem acompanhar. O resultado é previsível: pressão descendente sobre os preços, inviabilização económica das explorações familiares e abandono progressivo da actividade agrícola em regiões já fragilizadas.
A ilusão das oportunidades de exportação
Argumenta-se, com frequência, que o acordo abrirá novos mercados para produtos europeus de alto valor acrescentado, como o vinho, o azeite ou os lacticínios. No papel, soa bem. Na realidade, é uma ilusão perigosa.
A maioria dos consumidores dos países do Mercosul não tem poder de compra para absorver, em escala relevante, produtos premium europeus. E mesmo quando existe procura, ela é residual face ao impacto devastador que a entrada massiva de produtos agrícolas sul-americanos terá nos mercados internos europeus.
Trocar mercados protegidos por promessas vagas de exportação é um mau negócio. E insistir nessa narrativa é, no mínimo, desonesto.
Soberania alimentar: uma palavra vazia?
Durante anos, políticos, associações agrícolas e instituições públicas falaram de soberania alimentar, de resiliência, de produção local, de território. A pandemia e a guerra na Ucrânia mostraram, de forma clara, os riscos da dependência externa. Ainda assim, quando surge um acordo que aprofunda essa dependência, a reacção é o silêncio.
Onde estão as confederações agrícolas? Onde está a voz firme dos representantes do sector? Onde está o debate sério no Parlamento? A ausência de contestação pública não pode ser explicada por desconhecimento. Só pode ser explicada por acomodação, cálculo político ou medo de confronto com Bruxelas.
As chamadas “cláusulas de salvaguarda” e os fundos de compensação prometidos pela Comissão Europeia são, na prática, paliativos tardios. Não protegem o agricultor antes da quebra; tentam resgatá-lo depois da falência. Não preservam o território; gerem o seu declínio.
O custo social e territorial do silêncio
A agricultura portuguesa não é apenas um sector económico. É estrutura social, é identidade cultural, é gestão da paisagem, é fixação de populações. Cada exploração que fecha é mais um pedaço de território que se esvazia, mais um jovem que desiste de ficar, mais uma comunidade que se fragiliza.
Aceitar passivamente um acordo que acelera este processo é abdicar de uma visão estratégica para o país. É transformar o interior num espaço residual, dependente de subsídios e desprovido de futuro produtivo.
Um debate que tem de existir — agora
O problema do acordo UE–Mercosul não é apenas comercial. É político, social e civilizacional. Que modelo agrícola queremos? Um modelo baseado em volume e preço, ou em qualidade, sustentabilidade e proximidade? Queremos agricultores ou apenas importadores? Queremos soberania alimentar ou dependência estrutural?
O silêncio português perante este acordo é, talvez, o seu aspecto mais alarmante. Porque quando quem devia falar se cala, a decisão deixa de ser democrática e passa a ser imposta.
Ainda vamos a tempo de exigir debate, transparência e coragem política. Mas isso implica romper com a confortável quietude institucional e assumir que nem todo o “livre comércio” é progresso — e que, às vezes, o verdadeiro cavalo de Troia entra sem fazer barulho.
Internacional
O inverno de Washington e o novo fardamento europeu

A decisão norte-americana de suspender o compromisso climático e o multilateralismo da ONU força a Europa a escolher entre o investimento no futuro ou a paralisia do medo.
Opinião: Carlos Papafina
A ordem executiva assinada em Washington no início deste ano de 2026, que determina a suspensão da participação dos Estados Unidos em dezenas de organismos das Nações Unidas, incluindo o quadro de governação climática, não é apenas um solavanco na diplomacia internacional. É uma rutura estrutural que encerra um ciclo de três décadas de esforço multilateral, ainda que imperfeito, para conter o aquecimento global. Ao retirar-se da mesa de negociações e ao suspender o financiamento a organismos vitais, a maior economia do mundo e o segundo maior emissor histórico de gases com efeito de estufa lança o planeta numa zona de sombra. O facto é que, sem o motor financeiro e político de Washington, o Acordo de Paris e as metas de descarbonização perdem o seu principal garante de execução. O gesto político é claro: o isolacionismo regressou com uma força que já não é meramente retórica, mas administrativa e legal.
Na leitura que faço desta realidade, esta decisão não configura apenas um recuo ambiental; é uma declaração de guerra à ordem global estabelecida no pós-Guerra Fria. Ao normalizar o descompromisso, Washington sinaliza aos restantes grandes emissores — como a China, a Índia ou o Brasil — que as regras de responsabilidade partilhada são agora opcionais. O risco de um efeito dominó é real e imediato. Se o exemplo vem do topo, a tentação para outros governos relaxarem as suas metas nacionais, em nome de uma suposta competitividade económica de curto prazo, torna-se quase irresistível. No meu entender, estamos a assistir à fragmentação da governança global, onde o interesse nacional imediato atropela a sobrevivência coletiva a longo prazo.
A Europa encontra-se, neste cenário, num dilema existencial. Durante anos, o Velho Continente posicionou-se como o farol da transição verde, acreditando que a liderança pelo exemplo arrastaria as outras potências. Agora, Bruxelas vê-se sozinha numa arena onde as regras mudaram. O impacto económico é direto: as empresas europeias, sujeitas a normas ambientais rigorosas e a custos de emissão elevados, enfrentam a concorrência de indústrias norte-americanas que, libertas de amarras climáticas, poderão produzir de forma mais barata e agressiva. Esta assimetria cria uma pressão política interna insustentável, alimentando movimentos que exigem o desmantelamento do Pacto Ecológico Europeu em nome da sobrevivência industrial.
Todavia, o contexto de 2026 acrescenta uma camada de complexidade que não existia em crises anteriores: a reemergência da economia de guerra. A reorganização militar europeia, acelerada pela instabilidade nas fronteiras de Leste e pela incerteza sobre o papel da NATO perante o novo isolacionismo dos EUA, está a drenar os orçamentos públicos. Factos recentes mostram que vários Estados-membros da União Europeia reviram os seus orçamentos de Estado para priorizar a defesa e a segurança interna, muitas vezes à custa de dotações que estavam previstas para a infraestrutura energética verde. A narrativa do “inimigo às portas” é uma ferramenta poderosa que altera a psicologia das populações, movendo o foco do risco climático abstrato para a ameaça militar concreta.
Neste ambiente, a “política de guerra” torna-se o contexto dominante. O medo é um excelente catalisador de prioridades, mas é também um inimigo da transparência. Sob o manto da segurança nacional, decisões orçamentais críticas são tomadas de forma opaca, e o investimento em resiliência climática é frequentemente rotulado como um luxo que o continente não pode agora pagar. O perigo que antevejo é a normalização desta escolha binária — ou armas ou clima —, quando, na verdade, a segurança de um país no século XXI depende tanto da sua autonomia energética e estabilidade climática como do seu poder de fogo. A militarização do discurso político está a asfixiar o debate sobre o futuro do planeta.
Para o cidadão comum, esta turbulência traduz-se em ansiedade quotidiana. A inflação energética, que já era uma ferida aberta, ganha novos contornos com a incerteza sobre os investimentos em energias limpas. Se os governos hesitam na transição, os mercados reagem com volatilidade. O preço da eletricidade, o custo dos bens alimentares afetados por secas extremas e a incerteza sobre o emprego nas indústrias em transformação criam um caldo de cultura para a desconfiança nas instituições. As pessoas sentem que estão a pagar a fatura de um jogo geopolítico que não controlam, onde a segurança parece ser um conceito cada vez mais escasso e caro.
O enfraquecimento dos mecanismos multilaterais da ONU, resultante da retirada norte-americana, deixa também um vazio perigoso na gestão de recursos básicos. Sem uma supervisão global credível, as disputas por água, terras aráveis e minerais críticos para a tecnologia tendem a intensificar-se, podendo degenerar em conflitos regionais. A ciência, através do IPCC e de outros organismos independentes, tem sido clara ao afirmar que a crise climática é um multiplicador de ameaças. Ao ignorar este facto em favor de uma agenda militar clássica, a liderança política ocidental está a tratar os sintomas enquanto permite que a doença se torne incurável.
A nível diplomático, a ausência dos EUA nos fóruns climáticos retira o peso necessário para impor sanções ou incentivos que forcem o cumprimento de metas. A Agência Internacional de Energia (IEA) tem alertado para o facto de que a falta de coordenação global pode levar a um excesso de investimento em combustíveis fósseis que, embora pareçam uma solução rápida para a independência energética, condenarão as economias a ativos obsoletos e a um aquecimento catastrófico. É uma armadilha de curto prazo que a Europa não pode dar-se ao luxo de ignorar.
Perante este quadro, qual deve ser o rumo europeu? Creio que a resposta não passa por mimetizar o isolacionismo americano ou por abandonar as metas verdes em favor de um militarismo cego. A Europa precisa de assumir uma diplomacia climática de resistência, mas que seja simultaneamente pragmática e realista. Isto significa que a transição energética deve ser apresentada e executada como a maior garantia de soberania nacional. Produzir energia em solo europeu, através de fontes renováveis, é uma medida de defesa tão eficaz como o reforço de um batalhão de tanques. A independência energética é a única forma de retirar o poder de chantagem às potências autocráticas.
É fundamental que os governos europeus mantenham a transparência nos seus gastos. A “segurança” não pode ser um cheque em branco que anule o escrutínio público sobre as políticas ambientais. É necessário investir na resiliência das infraestruturas e na adaptação dos territórios, preparando as populações para os impactos climáticos que, de acordo com a Agência Europeia do Ambiente, já são inevitáveis. A defesa da democracia informada é a nossa melhor arma contra o populismo que se alimenta do medo e da desinformação climática.
Proponho, por isso, que a União Europeia lidere a criação de um novo bloco de cooperação climática, que inclua potências regionais e economias emergentes dispostas a manter as regras do jogo. Se os Estados Unidos optaram pela ausência, o resto do mundo deve demonstrar que a economia do século XXI será verde, com ou sem Washington. A liderança não se herda, conquista-se pela persistência e pela capacidade de manter o rumo no meio da tempestade.
Em conclusão, o inverno que chega de Washington não deve congelar as ambições europeias. A história ensina-nos que os momentos de maior incerteza são aqueles em que as decisões mais audazes produzem resultados mais duradouros. Não podemos permitir que o som dos tambores de guerra abafe o clamor de um planeta em agonia. O verdadeiro realismo político hoje consiste em compreender que não haverá nações seguras num mundo climaticamente destruído. A nossa melhor defesa é, e continuará a ser, a coragem de construir um futuro que não dependa da destruição do nosso próprio lar. Seria um erro histórico trocar o oxigénio das próximas gerações pela pólvora do presente. Seria, acima de tudo, uma derrota da inteligência humana.
Garantir que a transição climática continue a ser o eixo central da política europeia, integrando-a na estratégia de segurança e não a tratando como um acessório, é o único caminho para que a Europa não se torne irrelevante num mundo em convulsão. Seria útil que os nossos líderes recordassem que a paz não se mantém apenas com exércitos, mas com a estabilidade de um ecossistema que permita a vida. Seria útil, enfim, que tivéssemos a lucidez de não nos deixarmos cegar pelo medo, porque é no escuro que se perdem as melhores oportunidades de salvação. Seria útil que a Europa fosse, agora mais do que nunca, a Europa.
Agricultura
Opinião: Dependência alimentar e o desmantelamento da agricultura europeia

O debate em torno do acordo UE–Mercosul tem-se concentrado nos ganhos imediatos de exportação, nas tarifas que caem e nos mercados que se abrem. Mas a agricultura não funciona à escala do trimestre económico nem do comunicado optimista. Funciona em ciclos longos, em territórios, em gerações. É precisamente nessa escala — a do médio prazo — que começam a desenhar-se as consequências mais sérias para a agricultura e para os agricultores europeus.
Ao reduzir a produção interna e substituir alimentos europeus por importações, a União Europeia caminha para uma maior dependência alimentar externa. Esta dependência não é apenas comercial; é estratégica.
A história recente demonstrou como crises geopolíticas, conflitos armados, pandemias ou choques energéticos podem interromper cadeias globais de abastecimento. Uma Europa menos produtora e mais importadora:
fica exposta à volatilidade dos mercados internacionais;
perde capacidade de resposta em situações de crise;
transfere o controlo da sua alimentação para terceiros.
A segurança alimentar deixa de ser uma garantia estrutural e passa a ser uma variável externa.
O efeito dominó sobre as pequenas explorações
As pequenas e médias explorações agrícolas europeias são as primeiras a sentir o impacto da concorrência internacional em condições desiguais. Não têm escala, margem financeira nem capacidade logística para competir com produtos importados a baixo custo.
A médio prazo, o cenário é previsível:
redução dos preços pagos à produção;
quebra de rendimentos agrícolas;
abandono progressivo da actividade;
concentração da produção em poucas explorações de grande escala.
Este processo não é apenas económico. É social e territorial. Quando uma exploração fecha, fecha também uma forma de vida, um saber acumulado, uma presença humana no território.
Desmantelamento silencioso do mundo rural
O abandono agrícola acelera a desertificação humana de vastas regiões da Europa. Menos agricultores significa:
menos população activa no interior;
menos serviços públicos viáveis;
maior risco de incêndios e degradação ambiental;
perda de paisagem agrícola e biodiversidade gerida.
A agricultura europeia sempre foi mais do que produção alimentar. É ordenamento do território, coesão social e identidade cultural. A sua erosão tem efeitos que nenhum acordo comercial consegue compensar.
Agricultura estratégica ou sector descartável?
Ao aceitar acordos que fragilizam sectores inteiros, a UE envia um sinal político claro: a agricultura deixa de ser tratada como um pilar estratégico e passa a ser vista como um sector ajustável, sacrificável em nome de equilíbrios comerciais mais amplos.
Este posicionamento é particularmente contraditório num contexto em que se exige aos agricultores:
mais sustentabilidade;
mais investimento ambiental;
mais adaptação climática;
mais redução de emissões.
Exigir mais enquanto se protege menos é uma equação insustentável.
A perda de autonomia tem custos duradouros
Quando uma exploração agrícola desaparece, não regressa facilmente. A médio prazo, a Europa arrisca-se a perder capacidade produtiva instalada, conhecimento técnico local e autonomia alimentar. Recuperar essa capacidade, em cenário de crise, seria lento, caro e incerto.
Além disso, a concentração da produção em grandes operadores e em países terceiros reduz a diversidade dos sistemas alimentares, tornando-os mais frágeis a choques externos.
As consequências do actual rumo comercial não se medem apenas em litros exportados ou tarifas eliminadas. Medem-se em explorações que fecham, territórios que se esvaziam e autonomia que se perde.
A médio prazo, a dependência alimentar externa, o desmantelamento das pequenas explorações e a fragilização do mundo rural colocam em causa um dos pilares fundamentais da Europa: a capacidade de produzir o que consome.
A questão central não é se a Europa deve comerciar — deve. A questão é se pode dar-se ao luxo de trocar segurança alimentar, coesão territorial e soberania agrícola por ganhos comerciais de curto prazo.
Se essa for a escolha, o custo não será imediato. Mas será profundo, duradouro e, muito provavelmente, irreversível.
Carlos Papafina
Opinião: O aplauso ao acordo UE–Mercosul é sustentável, coerente e justo para a agricultura europeia?

O recente comunicado da Comissão Vitivinícola Regional Alentejana, aplaudindo a aprovação do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul, traduz uma leitura optimista do impacto do tratado para o sector vitivinícola do Alentejo. O argumento central é claro: a eliminação progressiva de tarifas aduaneiras abre uma oportunidade concreta de crescimento das exportações, sobretudo para o mercado brasileiro, já hoje o principal destino dos vinhos da região.
A questão que se coloca, porém, não é se este entusiasmo é legítimo do ponto de vista sectorial. É. A pergunta relevante — e inevitável — é outra: este aplauso é sustentável, coerente e justo quando analisado à escala da agricultura europeia no seu conjunto?
Um acordo estrutural, efeitos assimétricos
O acordo UE–Mercosul não é um instrumento dirigido ao vinho, nem a qualquer outro produto em particular. Trata-se de um acordo estrutural, com impacto profundo em cadeias agroalimentares inteiras. Ao mesmo tempo que facilita a exportação de vinho europeu, abre o mercado da União a volumes significativos de carne bovina, aves, açúcar, cereais e rações produzidos em condições substancialmente diferentes das europeias.
O resultado é uma distribuição desigual de benefícios e custos. Alguns sectores exportadores ganham margem competitiva. Outros enfrentam uma pressão acrescida sobre preços, rendimentos e viabilidade económica. Esta assimetria não é um efeito colateral menor; é uma consequência directa do desenho do acordo.
Concorrência e reciprocidade: o ponto crítico
O comunicado da CVRA refere a criação de “condições mais equilibradas de concorrência”. Esta afirmação merece uma leitura rigorosa. A concorrência só é equilibrada quando existe reciprocidade regulatória — e ela não existe plenamente.
Os agricultores europeus produzem sob regras exigentes em matéria ambiental, fitossanitária, laboral e de bem-estar animal. Estas exigências traduzem-se em custos reais de produção. Muitos dos produtos agroalimentares provenientes do Mercosul não estão sujeitos a normas equivalentes, seja no uso de fitofármacos, antibióticos ou na fiscalização ambiental.
Celebrar ganhos de competitividade num sector enquanto se aceita esta assimetria levanta um problema de coerência política: a União Europeia exige mais aos seus produtores, mas aceita importar produtos que não cumprem os mesmos padrões.
Sustentabilidade: para quem e a que preço
Do ponto de vista dos Vinhos do Alentejo, o acordo enquadra-se numa estratégia clara de internacionalização e valorização da origem. Do ponto de vista sistémico, a sustentabilidade é mais complexa.
A pressão sobre sectores menos exportadores ou mais vulneráveis pode acelerar:
o abandono de explorações familiares;
a desertificação de territórios rurais;
a dependência externa em produtos alimentares estratégicos.
Uma política agrícola sustentável não pode ser avaliada apenas pelo sucesso de alguns sectores. Tem de ser medida pela capacidade de manter um tecido agrícola equilibrado, socialmente viável e territorialmente coeso.
Saúde e segurança alimentar: um risco a considerar
Há ainda uma dimensão frequentemente secundarizada no debate: a segurança alimentar. A UE construiu um dos sistemas mais exigentes do mundo, assente no princípio da precaução. A multiplicação de importações provenientes de cadeias longas e com controlos não equivalentes aumenta a complexidade da fiscalização e o risco de falhas.
Não se trata de alarmismo, mas de prudência. Menos tarifas não podem significar menos garantias para o consumidor europeu.
O aplauso da CVRA ao acordo UE–Mercosul é compreensível à luz dos interesses do sector vitivinícola alentejano. O problema surge quando esse aplauso é apresentado como sinal inequívoco de coerência estratégica, ignorando os impactos negativos sobre outros sectores agrícolas, a assimetria regulatória e os riscos para a segurança alimentar.
A questão não é ser contra a internacionalização nem contra o comércio. É perguntar se o modelo escolhido distribui de forma justa os benefícios e os custos, se respeita os princípios que a própria União Europeia impõe internamente e se contribui para uma agricultura europeia equilibrada e sustentável.
Sem respostas claras a estas perguntas, o entusiasmo corre o risco de ser legítimo para alguns — mas profundamente injusto para muitos outros.
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