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Portugal

Investigação da FEUP aponta caminho para proteger paisagens costeiras do norte

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A decisão foi unânime: Carla Gonçalves, estudante do Programa Doutoral em Planeamento do Território da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), foi a grande vencedora – na categoria Doutoramento – do Concurso de Teses de Mestrado e Doutoramento sobre Política Regional de Inovação e Estratégias de Especialização Inteligente, promovido pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR NORTE).

Intitulada “Towards Coastal Landscape Governance. Insights across time and space from Northern Portugal”, a tese premiada procurou compreender se, e em que medida, a integração do conceito de paisagem nos sistemas de governação costeira contribui para a proteção do litoral.

“O problema central decorre de uma realidade complexa: as paisagens costeiras são reguladas por múltiplas instituições e atores, com interesses frequentemente conflituantes, em diferentes escalas administrativas. A isto acresce que muitas regiões costeiras do mundo, incluindo Portugal, têm sofrido transformações significativas nas últimas décadas, em parte aceleradas pelas alterações climáticas. A questão essencial era perceber se a forma como o conceito de paisagem tem sido conceptualizado e integrado nos instrumentos de planeamento costeiro tem, ou não, tido um efeito real na proteção do litoral”, explica Carla Gonçalves.

O principal contributo científico da investigação consiste em demonstrar, com base em evidência empírica, que níveis mais elevados de integração da paisagem nos instrumentos de governação costeira contribuem para a proteção da paisagem costeira. Ou seja: ao identificar lacunas, barreiras institucionais e boas práticas de governação, oferece uma base científica robusta para orientar futuras reformas do sistema de governação costeira, algo fundamental para as políticas públicas.

O trabalho evidencia ainda como a articulação entre níveis regional, nacional e europeu influencia a transformação territorial e paisagística, um conhecimento essencial para desenhar políticas regionais mais coerentes e eficazes.

De facto, o Conselho Nacional do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS), numa reflexão recente sobre gestão sustentável da zona costeira, identifica explicitamente a ausência de consideração da governança da paisagem como uma das dimensões da governação costeira como um problema estrutural, ao mesmo tempo que reconhece apelos académicos, nomeadamente desta investigação, para uma integração mais explícita do conceito de paisagem em instrumentos de planeamento e gestão costeira através de unidades de paisagem caraterizadas com critérios socioecológicos.

O futuro marcado pelas memórias das paisagens da infância

A escolha deste tema não foi ao acaso. Carla Gonçalves confessa que as memórias da infância e sobretudo as paisagens que guarda do Porto a Viana do Castelo foram determinantes, uma vez que moldaram a sua ligação ao território e à paisagem, tendo sido fatores determinantes para enveredar pelo curso de Arquitetura Paisagista, na Faculdade de Ciências da U.Porto (FCUP), em 2003.

Seguiu-se um estágio curricular na CCDR-Norte, onde desenvolveu uma investigação sobre a (possível) avaliação ambiental estratégica do Plano de Ordenamento da Orla Costeira Caminha-Espinho. Anos depois, teve a oportunidade de integrar a equipa de coordenação responsável pela revisão desse mesmo plano (agora programa), em 2021.

“Foi a consciência de que essas paisagens se estavam a transformar, e, em alguns casos, a desaparecer, aliada ao meu percurso profissional, que me conduziu à governação da paisagem costeira como tema de doutoramento”, admite Carla Gonçalves.

E quais foram as principais conclusões? A tese avança o estado da arte em dois planos: do ponto de vista empírico, fornece evidência científica sobre a relação entre a integração da paisagem nos instrumentos de governação e a proteção efetiva da paisagem costeira; no plano teórico, cruza de forma sistemática dois campos que até aqui tinham evoluído em paralelo – a governação costeira e a governação da paisagem – e propõe a “governação da paisagem costeira” como um novo campo de investigação.

“Para além disso, identifica um resultado inesperado com implicações conceptuais relevantes: uma contradição estrutural no caso português. Em termos gerais, verifica-se que as instituições nacionais e regionais estavam, em certos aspetos, mais alinhadas com os princípios da Convenção Europeia da Paisagem do Conselho da Europa (2000) nas décadas de 1970 e 1980 do que após a sua ratificação formal em 2005. Este resultado levanta questões sobre a eficácia dos compromissos não vinculativos quando não são acompanhados por instrumentos normativos de aplicação obrigatória ao nível europeu”, conclui a investigadora do Centro de Investigação do Território, Transportes e Ambiente (CITTA), sediado na FEUP.

Para Carla Gonçalves, um dos resultados mais marcantes foi perceber que, embora as referências à paisagem nos instrumentos de planeamento tenham aumentado ao longo do tempo, esse crescimento não se traduziu num maior uso do seu potencial integrador enquanto ferramenta de governação. Pelo contrário: fala-se mais de paisagem, mas recorre-se menos à ciência da paisagem como base conceptual para a decisão.

“O resultado mais inesperado prende-se com o estudo do arquiteto paisagista Ilídio de Araújo (1977/78). A análise sugere que, se tivesse sido implementado, poderia ter alterado de forma significativa a evolução da paisagem costeira no Norte de Portugal, revelando um potencial de ação que acabou por se perder”, esclarece.

Esta constatação aponta para a urgência de reintegrar arquitetos paisagistas como atores centrais na governação da paisagem costeira, recuperando assim o potencial integrador que Ilídio de Araújo demonstrou há quase 50 anos.

O trabalho culmina na proposta de um “Manifesto para a Governação Paisagística do Litoral”, que traduz os resultados em recomendações práticas para políticas públicas e para uma agenda europeia de investigação. De acordo com a investigadora, “as conclusões apontam ainda para a necessidade de reforçar o papel da ciência da paisagem no desenho de políticas públicas, discutindo o alcance efetivo da Convenção Europeia da Paisagem do Conselho da Europa (2000).

Sendo um instrumento não vinculativo, ratificado pelo Estado Português, a sua implementação depende fortemente da vontade política e da existência de mecanismos institucionais consistentes, o que ajuda a explicar os diferentes níveis de impacto observados”. Ou dito de outra forma: a investigação sublinha a importância de reformas institucionais e de compromissos de longo prazo para aumentar a resiliência das paisagens costeiras face às transformações em curso.

A investigação ao serviço das políticas públicas regionais

Promovido no contexto da iniciativa S3NORTE2027 – Capacitação Regional para a Especialização Inteligente, o Concurso de Teses de Mestrado e Doutoramento sobre Política Regional de Inovação e Estratégias de Especialização Inteligente reuniu um total de 14 candidaturas, sendo sete de doutoramento e sete de mestrado.

A avaliação e seleção das teses foi assegurada por um júri designado pelo Presidente da CCDR NORTE e presidido por Daniel Bessa, personalidade externa à instituição com reconhecida experiência na área da política de inovação regional. A cerimónia de entrega dos prémios teve lugar no passado dia 22 de maio.

Para além de Carla Gonçalves, a iniciativa premiou também a tese de mestrado de Raquel Maia Morgado, mestre em Economia e Gestão da Inovação pela Faculdade de Economia da U.Porto (FEP).

Segundo o Presidente da CCDR NORTE, Álvaro Santos, “este concurso evidencia a importância do conhecimento científico como suporte às políticas públicas regionais e reforça a aposta da Região Norte numa especialização inteligente assente na inovação, na evidência e na cooperação entre instituições de ensino superior, sistema científico e decisores públicos”.



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Portugal

Alunos do ensino básico

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Na semana de 22 a 26 de junho, o IPMA, em colaboração com o Centro Ciência Viva do Algarve, promoveu um conjunto de sessões dedicadas à Aquacultura Circular. A atividade foi dirigida a alunos do 3.º e 4.º ano do ensino básico de escolas dos concelhos de Loulé, Faro, Olhão e Tavira, municípios inseridos na área da Ria Formosa, uma das mais importantes zonas de aquacultura em Portugal.
A iniciativa, desenvolvida no âmbito do projeto europeu AZA4ICE, teve como objetivo sensibilizar os mais jovens para a forma como os princípios da economia circular podem ser aplicados à aquacultura, dando a conhecer soluções inovadoras que promovem uma utilização mais eficiente dos recursos naturais e práticas de produção mais sustentáveis.
Durante as sessões, os participantes exploraram, de forma prática e interativa, dois sistemas de produção em aquacultura: os Sistemas de Recirculação em Aquacultura (RAS) e a Aquacultura Multitrófica Integrada (IMTA). Os alunos tiveram a oportunidade de perceber como estes modelos contribuem para a redução de desperdícios, o reaproveitamento de recursos e a minimização dos impactos nos ecossistemas.
Através de atividades adaptadas à faixa etária dos participantes, a iniciativa fomentou o conhecimento dos desafios relacionados com os oceanos e a sustentabilidade, destacando o papel da ciência e da inovação no desenvolvimento de sistemas de produção alimentar que preservem os recursos para as gerações futuras.



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Alentejo

Alvito lidera captação de fundos europeus no Alentejo e converte projetos em motor de desenvolvimento

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O concelho de Alvito assume-se como o território com maior volume de projetos submetidos e aprovados junto da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) do Alentejo. O dado estatístico estabelece um marco no panorama da gestão do investimento público na região, colocando o município no topo da eficiência técnica na captação de fundos comunitários para alavancar a economia local.

Em duas entrevistas complementares, o Presidente da CCDR Alentejo e o Presidente da Câmara Municipal de Alvito, José Efigénio, analisam a convergência de estratégias que permitiu ao município liderar a mobilização de incentivos europeus. O alinhamento institucional entre a tutela regional e a autarquia é apontado como o fator determinante para acelerar a execução de verbas destinadas à coesão territorial, à valorização do património e ao reforço do tecido produtivo.

Alinhamento estratégico e capacidade técnica

A liderança de Alvito no aproveitamento dos quadros de financiamento europeu resulta de uma transição focada no alinhamento de prioridades económicas com as diretrizes de desenvolvimento regional. Segundo os responsáveis, a capacidade do concelho em liderar a submissão e aprovação de candidaturas reflete uma preparação técnica estruturada, capaz de transformar as caraterísticas específicas do concelho em projetos financeiros elegíveis.

Esta dinâmica de convergência entre a autarquia e a CCDR Alentejo tem garantido a viabilização de investimentos em áreas críticas como o turismo sustentável, a preservação patrimonial e a inovação no setor agroalimentar. O objetivo central passa por maximizar o impacto do capital comunitário para aumentar a competitividade territorial e travar a desertificação humana no interior alentejano.

Fixação de população e valorização do património

A aplicação das verbas comunitárias aprovadas visa dar resposta aos desafios estruturais da região. A estratégia municipal enquadrada pela CCDR Alentejo foca a criação de condições para a fixação de novos residentes, o reforço dos serviços à população e a dinamização do tecido empresarial local.

A conversão dos recursos endógenos em ativos de valor acrescentado tem permitido ao concelho projetar a sua base económica, posicionando Alvito como um caso de estudo na eficácia de gestão dos fundos de coesão no Alentejo.

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Portugal

FCUP ajuda a desenvolver ímanes avançados para tecnologias do futuro

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A equipa da FCUP é composta por Leonor Garcia (à esquerda), Ana Pires e André Pereira. Foto: SIC.FCUP


Uma equipa de investigadores da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto (FCUP) está a ajudar no desenvolvimento e validação de novos materiais magnéticos com aplicação direta em veículos elétricos, turbinas eólicas, robótica e sistemas de defesa.  

O trabalho é coordenado pela alqem, uma startup DeepTech alemã que acaba de angariar 8 milhões de euros numa ronda de financiamento pre-seed, para acelerar a descoberta destes materiais baseados em Inteligência Artificial (IA).  

A alqem utiliza IA e validação laboratorial para descobrir a próxima geração de materiais avançados, começando por ímanes sem terras raras. O objetivo é reduzir a dependência energética face à China, já que 90% destes ímanes permanentes (que utilizam terras raras) são produzidos neste país e as recentes restrições à exportação transformaram o abastecimento destes materiais numa questão geopolítica de primeira ordem. 

“Esta colaboração representa um desafio científico multidisciplinar, uma vez que conjuga ferramentas avançadas de ciência computacional com a síntese e caracterização experimental de materiais, promovendo uma interação contínua entre previsões teóricas e resultados laboratoriais”, comenta André Pereiradocente da FCUP e investigador do IFIMUP – Instituto de Física de Materiais Avançados, Nanotecnologia e Fotónica.  

O motor de descoberta da alqem já gerou um conjunto de candidatos a ímanes sem terras raras, cujo desempenho previsto foi validado através de dados experimentais.  

Resultados promissores alcançados na FCUP 

A equipa da FCUP, que tem um contrato de prestação de serviços com a alqem, é responsável pela síntese destes materiais candidatos e pela sua caracterização experimental. Para isso, os investigadores recorrem a um conjunto de técnicas complementares que permitem avaliar as suas propriedades estruturais, químicas e magnéticas. “Esta caracterização é fundamental para validar as previsões dos modelos e aprofundar a compreensão da relação entre composição, estrutura e propriedades dos materiais”, explica o docente da FCUP.  

Os resultados até ao momento são, segundo o investigador, “extremamente promissores”: “Verifica-se uma excelente concordância entre as previsões dos modelos e os resultados experimentais obtidos na FCUP.” Para além de André Pereira, integram também a equipa da FCUP a investigadora Ana Pires e a bolseira de investigação, Leonor Garcia. 

A combinação entre previsões teóricas e validação experimental permite não só aumentar a confiança na identificação de novos materiais, como também acelerar o seu desenvolvimento e otimização. Desta forma, é possível reduzir o número de ensaios experimentais necessários e contribuir para uma investigação mais eficiente e orientada para aplicações tecnológicas. 

Materiais que irão impulsionar a próxima era tecnológica 

“Pela primeira vez, dispomos de um mapa do universo dos materiais. Não apenas de alguns compostos conhecidos, mas de centenas de milhões de possibilidades que podemos agora explorar de forma sistemática e trazer para o mundo. Materiais que poderão tornar os veículos elétricos mais eficientes, as turbinas eólicas mais potentes e as cadeias de abastecimento críticas independentes do controlo de um único país”, afirma Hanh Nguyen, CEO da alqem. 

Entre os parceiros de investigação da alqem estão também a LMU Munique, a Universidade Técnica de Munique (TU Munich), o Instituto Superior Técnico e a Universidade de Coimbra. 

Fundadores da alqem (da esquerda para a direita): Tiago Cerqueira (CTO), Hanh Nguyen, CEO da alqem e Milan Allan (da LTU Munich). Foto: DR

O trabalho desta startup é apoiado por uma estreita colaboração com o Instituto Max Planck para a Física Química dos Sólidos, em Dresden, dedicada ao desenvolvimento de materiais magnéticos de nova geração. A colaboração é liderada por Claudia Felser, diretora do Instituto e vice-presidente da Sociedade Max Planck, que integra igualmente o conselho científico da alqem, juntamente com Miguel Marques, docente da Universidade Ruhr de Bochum) e Michael Viertler, antigo Senior Partner e Managing Partner da McKinsey em Munique. 

A última grande descoberta ocorreu há mais de 40 anos. Agora, com estes avanços e com a colaboração da FCUP, espera-se chegar a um íman permanente inovador, sem terras raras, que permita acelerar a tecnologia do futuro.  



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Portugal

Há homens que não morrem enquanto houver quem os escute

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Hoje morreu Luís Represas.
Escrevo estas palavras com um peso que dificilmente consigo explicar. Não porque Portugal tenha perdido apenas um dos seus maiores músicos. Escrevo-as porque sinto que perdi um homem cuja presença foi cruzando, de forma quase inexplicável, vários momentos da minha própria vida.
Conheci Luís Represas pouco tempo depois de um dos episódios mais marcantes da minha carreira como jornalista: o massacre do Cemitério de Santa Cruz, em Díli. Regressava de um tempo em que a violência parecia ter substituído a humanidade e, curiosamente, encontrei um homem que procurava precisamente o contrário: devolver esperança através da música.
Lembro-me de ser um período particularmente delicado da sua vida. Apesar disso, nunca lhe ouvi uma palavra de revolta. Havia uma serenidade difícil de explicar, como se acreditasse que a música pudesse dizer aquilo que as palavras já não conseguiam.
Pouco tempo depois surgiu o desafio lançado pelo então Presidente da República para escrever uma canção que marcaria esse tempo. Recordo-me de olhar para aquele momento e perceber que alguns artistas não são apenas intérpretes da sua época; tornam-se parte da memória de um país.
Ao longo das décadas, as nossas vidas continuaram a cruzar-se.
Muitas vezes foi por razões profissionais. Eu estava a fazer a cobertura de um evento; ele chegava para subir ao palco. Cumprimentávamo-nos com a naturalidade de quem já não precisa de apresentações. Bastavam poucos minutos de conversa para perceber que o tempo não lhe tinha retirado aquilo que mais admirava nele: a simplicidade.
Mas houve encontros ainda mais curiosos.
Daqueles improváveis que a vida, por vezes, oferece. Lugares onde ninguém esperaria encontrar Luís Represas e onde, de repente, lá estava ele. Sorridente. Disponível. Sem pressas. Como se a fama fosse apenas um detalhe da sua existência e nunca a sua identidade.
Esses encontros ensinaram-me mais sobre o homem do que muitos concertos ensinaram sobre o artista.
Vivemos numa época em que tantas figuras públicas parecem construir personagens para sobreviver à exposição mediática. Luís Represas nunca precisou disso. Era exatamente a mesma pessoa diante de milhares de espectadores ou numa conversa tranquila, longe dos holofotes.
Talvez seja essa a razão pela qual tantas gerações se reconheceram na sua música.
Não cantava para impressionar.
Cantava para chegar às pessoas.
E chegava.
Hoje, quando releio as notícias da sua partida, dou por mim a recordar não apenas a voz que encheu teatros, nem apenas o músico extraordinário que marcou a história da música portuguesa.
Recordo o homem.
A forma como olhava nos olhos quando conversava. A tranquilidade com que escutava. A educação, cada vez mais rara, com que tratava todos, independentemente da importância que tivessem.
Há artistas que deixam discos.
Outros deixam prémios.
Luís Represas deixa muito mais do que isso.
Deixa uma forma de estar. Uma maneira de compreender que o talento nunca precisa de ser maior do que a humanidade.
Hoje Portugal despede-se de um dos seus maiores músicos.
Eu despeço-me de alguém que tive o privilégio de encontrar em diferentes momentos da vida e que, em todos eles, confirmou exatamente aquilo que o público via em palco: um homem íntegro, generoso e profundamente humano.
As vozes calam-se.
As canções ficam.
E algumas pessoas, mesmo depois de partirem, continuam a acompanhar-nos em silêncio.
Adeus, Luís.
Obrigado pela música.
Obrigado pela amizade possível.
E obrigado por nos lembrares, ao longo de tantos anos, que a maior obra de um artista é, afinal, a pessoa que escolhe ser

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