Carlos Papafina
O algoritmo da indignação: quando as redes sociais lucram com o caos

Durante anos, muitos suspeitaram do que agora começa a surgir com maior clareza: as grandes plataformas tecnológicas não são apenas intermediárias neutras da informação. São máquinas económicas desenhadas para maximizar atenção — e, muitas vezes, a forma mais eficaz de captar atenção é através do conflito, da indignação e do medo.
Uma recente investigação citada pela BBC voltou a colocar o problema no centro do debate público. Segundo relatos de denunciantes e antigos colaboradores das próprias empresas tecnológicas, plataformas digitais terão permitido deliberadamente a circulação de conteúdos classificados como borderline — materiais que não violam diretamente as regras legais, mas que incluem misoginia, racismo, teorias da conspiração ou desinformação.
A lógica é simples e profundamente inquietante: esse tipo de conteúdo gera envolvimento.
Quanto mais indignação provoca, mais comentários, partilhas e reações produz. E cada interação é, no fundo, mais tempo passado na plataforma — ou seja, mais receitas publicitárias.
O algoritmo não quer verdade. Quer atenção.
As grandes plataformas insistem que os seus algoritmos foram concebidos para compreender melhor os interesses dos utilizadores. A narrativa oficial afirma que as redes sociais apenas mostram aquilo que as pessoas querem ver.
Mas a realidade parece mais complexa.
Os algoritmos não compreendem contexto moral nem verdade factual. Compreendem apenas sinais de comportamento: cliques, comentários, partilhas, tempo de visualização.
Quando um conteúdo provoca uma reação emocional forte — indignação, medo ou raiva — o sistema interpreta isso como relevância. E promove-o ainda mais.
Assim nasce o que muitos investigadores chamam hoje de economia da indignação.
Conteúdos conspirativos, vídeos manipulados, teorias absurdas ou mensagens extremistas são frequentemente desenhados precisamente para explorar esse mecanismo. São o chamado ragebait: conteúdos feitos para irritar o público e gerar reações intensas.
E, infelizmente, funcionam.
A tentação do lucro
Segundo documentos citados na investigação, em 2024 uma parte significativa das receitas de uma das maiores plataformas tecnológicas do mundo terá vindo de anúncios fraudulentos ou associados a produtos proibidos. Estima-se que essa parcela represente cerca de 10% da receita anual, o equivalente a milhares de milhões de dólares.
O mais preocupante não é apenas a existência desses conteúdos, mas a indicação de que as próprias empresas conhecem o fenómeno.
A pergunta torna-se inevitável: se um sistema gera lucro através de conteúdos problemáticos, que incentivo real existe para o alterar?
Cortar esse tipo de conteúdo pode significar reduzir engagement. E reduzir engagement pode significar perder receita.
É o clássico dilema entre ética e modelo de negócio.
Quando a democracia entra na equação
O problema, porém, ultrapassa a esfera individual ou psicológica.
As redes sociais tornaram-se hoje um dos principais campos de batalha da informação global. Estados, grupos organizados e campanhas de manipulação digital compreendem perfeitamente a lógica dos algoritmos.
Se um conteúdo polarizador gera alcance, então produzir conteúdos polarizadores torna-se uma estratégia política.
Nos últimos anos, campanhas de desinformação associadas a eleições, crises internacionais ou conflitos geopolíticos demonstraram como os algoritmos podem ser instrumentalizados para amplificar narrativas falsas ou manipuladas.
A consequência é uma erosão gradual da confiança pública.
Quando as pessoas deixam de distinguir o que é verdadeiro do que é fabricado, a própria ideia de realidade comum começa a fragmentar-se.
O impacto invisível
Há ainda uma dimensão menos discutida, mas igualmente grave: o impacto psicológico.
Investigadores têm associado o uso intensivo de redes sociais a problemas de concentração, ansiedade, perturbações do sono e aumento de sintomas depressivos, sobretudo entre os mais jovens.
Num ambiente dominado por estímulos constantes e conteúdos emocionalmente extremos, a capacidade de reflexão crítica tende a diminuir.
O problema não está apenas no conteúdo. Está no sistema que o amplifica.
A ilusão da neutralidade tecnológica
Durante anos, as grandes empresas tecnológicas defenderam a ideia de que eram meros intermediários — plataformas neutras que apenas hospedavam conteúdo produzido pelos utilizadores.
Essa narrativa torna-se cada vez mais difícil de sustentar.
Os algoritmos não são neutros. São sistemas desenhados por humanos, com objetivos económicos claros.
Escolhem o que mostrar, o que amplificar e o que esconder. E essas escolhas moldam o debate público global.
O debate que ainda está por fazer
Governos e reguladores em várias partes do mundo discutem atualmente novas regras para a moderação de conteúdos online. Mas o debate tende a concentrar-se numa questão difícil de definir: o que exatamente constitui conteúdo prejudicial?
Enquanto essa discussão se arrasta, os algoritmos continuam a funcionar exatamente como foram desenhados.
A questão talvez devesse ser colocada de outra forma.
Não apenas que conteúdo deve ser removido, mas que tipo de conteúdo os sistemas devem deixar de amplificar.
Porque o verdadeiro poder das plataformas não está apenas em permitir que algo exista online.
Está em decidir aquilo que milhões de pessoas vão ver primeiro.
E, neste momento, parece cada vez mais claro que aquilo que os algoritmos promovem nem sempre é aquilo que as sociedades precisam.
Carlos Papafina
O Pisão e o Fantasma de Alqueva: Quantas Vezes Vamos Destruir o Alentejo em Nome do “Progresso”?

A decisão do Tribunal Central Administrativo Sul de voltar a suspender as obras da Barragem do Pisão reacendeu um debate que o país insiste em evitar: afinal, o que aprendemos verdadeiramente com Alqueva?
Durante anos venderam-nos a ideia de que as grandes barragens seriam a redenção definitiva do interior alentejano. Prometeram fixação de população, prosperidade, desenvolvimento agrícola, emprego e futuro. Hoje, basta atravessar vastas zonas do Baixo Alentejo para perceber que a realidade ficou muito aquém da narrativa política.
O Alentejo continua a perder população. Beja continua entre os distritos mais envelhecidos e desertificados do país. Pequenas aldeias continuam a fechar portas. Jovens continuam a emigrar. E, apesar disso, o modelo repete-se como um dogma intocável: mais água, mais regadio intensivo, mais monocultura, mais concentração fundiária.
A pergunta impõe-se: para quem serve realmente esta nova barragem?
O discurso oficial fala em “desenvolvimento regional”, “segurança hídrica” e “alterações climáticas”. A CIMAA insiste que o Pisão é um investimento estratégico de 222 milhões de euros, destinado a garantir água, energia e emprego no Alto Alentejo.
Mas a experiência de Alqueva obriga-nos a olhar para lá da propaganda institucional.
A verdade incómoda é que grande parte da expansão do regadio no Alentejo acabou por beneficiar modelos agrícolas superintensivos, altamente mecanizados, dependentes de mão de obra precária e desligados da identidade histórica da região. Em muitas zonas, a paisagem tradicional do montado foi substituída por um mar geométrico de culturas intensivas, onde a biodiversidade desaparece e a terra deixa de respirar.
Os próprios estudos académicos sobre o pós-Alqueva reconhecem profundas transformações da paisagem, da ocupação do solo e do equilíbrio ecológico regional.
No caso do Pisão, as associações ambientalistas alertam para a inundação de centenas de hectares de montado e para impactos irreversíveis sobre ecossistemas únicos do Alto Alentejo.
E aqui reside a grande questão moral e política.
Vale a pena destruir um ecossistema inteiro para entregar milhares de hectares de regadio a grupos económicos que muitas vezes nem pertencem ao território? Vale a pena submergir montados centenários — um dos sistemas ecológicos mais ricos da Europa — para alimentar um modelo agrícola que exporta riqueza para fora da região e deixa cá apenas desgaste ambiental e trabalho sazonal?
Porque é impossível ignorar aquilo que aconteceu em torno de Alqueva.
Prometeram-nos desenvolvimento equilibrado. Mas em muitos casos assistimos à concentração da terra, à financeirização da agricultura e à transformação do Alentejo num território produtivo ao serviço de interesses externos. A paisagem humana rareou precisamente no momento em que o investimento público atingiu níveis históricos.
O paradoxo é brutal: nunca houve tanta água armazenada e nunca houve tantas aldeias vazias.
E talvez seja isso que mais assusta no projeto do Pisão. Não é apenas a barragem. É a incapacidade coletiva de questionar um modelo de desenvolvimento que mede o território apenas em hectares irrigáveis, megawatts produzidos e fundos europeus executados.
Há uma dimensão humana que desapareceu do debate.
O Alto Alentejo não precisa apenas de água. Precisa de pessoas. Precisa de escolas abertas. Precisa de serviços públicos. Precisa de pequenas explorações agrícolas sustentáveis. Precisa de economia local. Precisa de património preservado. Precisa de identidade.
Nenhuma barragem resolve isso sozinha.
O mais inquietante é perceber que continuamos presos a uma visão dos anos 60: dominar rios, represar paisagens, inundar vales e acreditar que grandes obras públicas equivalem automaticamente a progresso.
Mas o mundo mudou.
Hoje sabemos que os ecossistemas têm valor económico, climático e civilizacional. Hoje sabemos que a biodiversidade não é um luxo de ambientalistas urbanos. Hoje sabemos que o montado é uma das últimas barreiras contra a desertificação extrema do sul da Europa.
E sabemos também que a água do futuro será cada vez mais escassa.
Por isso, talvez a pergunta mais séria sobre o Pisão não seja jurídica nem processual.
Talvez seja histórica.
Daqui a cinquenta anos, quando os nossos filhos olharem para o Alto Alentejo, verão uma região mais viva, mais humana e mais sustentável graças a esta barragem?
Ou verão apenas mais um território transformado numa paisagem industrial de regadio intensivo, onde a água pública serviu sobretudo interesses privados?
O país ainda vai a tempo de discutir isso com honestidade.
Porque depois da água subir, já não haverá regresso possível.
Carlos Papafina
Pagar para ninguém ver? O caso de Alter do Chão e a ilusão da projeção internacional

Amanhã, Alter do Chão vai estar “no mundo”. Pelo menos é essa a promessa.
O Município investe 19.900 euros para garantir a transmissão em direto da corrida de touros da Feira de São Marcos através da plataforma espanhola OneToro TV. A decisão é apresentada como uma estratégia de promoção internacional, capaz de levar o nome do concelho a mercados com potencial turístico e económico.
Mas há uma pergunta simples que paira sobre esta aposta:
quem vai ver?
A OneToro não é um canal generalista nem uma televisão em sinal aberto. É uma plataforma digital paga, acessível apenas a subscritores. Isto significa que a transmissão financiada com dinheiros públicos não está disponível livremente nem para os portugueses, nem para os espanhóis, nem sequer para os próprios habitantes de Alter do Chão.
O concelho investe para se mostrar ao mundo — mas escolhe fazê-lo num espaço fechado.
A lógica da promoção territorial é conhecida: visibilidade gera interesse, interesse gera visitantes, visitantes geram economia. Mas esta cadeia só funciona se houver escala. E é precisamente aqui que surgem as dúvidas.
A própria plataforma escolhida pelo Município enfrenta dificuldades conhecidas. A imprensa espanhola tem noticiado uma base de assinantes reduzida, prejuízos acumulados e até a suspensão de transmissões por inviabilidade económica. Não estamos perante um operador consolidado, mas perante um projeto de nicho, com um modelo ainda por provar.
Ainda assim, é esta plataforma que amanhã vai servir de montra internacional para Alter do Chão.
Pode? Pode.
Mas isso não responde ao essencial.
A legalidade formal da decisão não é, à partida, o problema. O valor enquadra-se no regime de ajuste direto, a contratação de uma entidade estrangeira é permitida, e a promoção cultural faz parte das competências municipais.
O problema está noutro lado: na demonstração do interesse público.
O Município fala em “projeção internacional”, “audiência qualificada” e “retorno económico”. Mas não apresenta dados. Não indica quantos espectadores são esperados. Não quantifica impacto turístico. Não explica que benefícios concretos resultam desta transmissão.
Sem números, o retorno é uma promessa.
E há ainda um detalhe que não pode ser ignorado: o conteúdo pago com dinheiro público não é de acesso livre. Ou seja, os contribuintes financiam uma transmissão que, na prática, pode não estar ao seu alcance.
Isto levanta uma questão de princípio:
faz sentido investir recursos públicos numa difusão limitada, mediada por uma subscrição, sem prova de impacto?
Mais: existiam alternativas? Plataformas abertas, meios portugueses, soluções digitais com maior alcance público? O Município não esclarece se essas opções foram avaliadas.
A ideia de que não há alternativa exige demonstração — não basta afirmá-la.
Amanhã, a corrida será transmitida. As câmaras vão mostrar a praça, os cavalos, o ritual. Alter do Chão vai, de facto, aparecer.
Mas a questão não é se aparece.
É se alguém está a ver.
E, sobretudo, se esse olhar — que não se conhece, não se mede e não se comprova — justifica os 19.900 euros pagos por todos.
Num tempo em que cada euro público deve ser explicado com rigor, a diferença entre investimento e despesa está nos resultados.
E esses, por agora, continuam invisíveis.
Carlos Papafina
A medida da nossa pequena grandeza

Há números que têm o poder raro de nos colocar no nosso verdadeiro lugar. Numa época em que a humanidade parece acreditar que domina o planeta — que o transforma, que o altera, que o controla — basta por vezes um cálculo simples para percebermos a dimensão real da nossa presença no chamado “Planeta Azul”.
Desde o aparecimento do Homo sapiens, há cerca de 300 mil anos, estima-se que tenham vivido na Terra aproximadamente 117 mil milhões de seres humanos. Parece um número esmagador. É difícil imaginar uma multidão dessa escala. Mas se fizermos um exercício simples — e profundamente revelador — a nossa perceção muda radicalmente.
O corpo humano é composto, em média, por cerca de 70% de água. Se reuníssemos toda a água contida nos corpos de todos os homens e mulheres que já nasceram ao longo da história, obteríamos um volume de aproximadamente quatro quilómetros cúbicos de água.
Quatro quilómetros cúbicos.
É muito? É pouco?
Depende da escala com que olhamos para o mundo.
Esse volume de água seria suficiente para encher, com alguma aproximação, a albufeira de Alqueva, o maior lago artificial da Europa. Mas não chegaria sequer para um pequeno mar. E se toda essa água fosse despejada no Mar Mediterrâneo, faria subir o nível do mar apenas cerca de dois milímetros.
Dois milímetros.
A espessura de uma unha.
Este exercício, aparentemente trivial, revela algo profundamente perturbador e, ao mesmo tempo, profundamente libertador: a humanidade, em termos físicos, é quase insignificante no sistema planetário.
E, no entanto, somos capazes de alterar profundamente o equilíbrio do planeta.
Nos últimos dois séculos — um piscar de olhos na escala geológica — a atividade humana transformou a atmosfera, alterou ecossistemas, provocou extinções de espécies, modificou ciclos naturais que existem há milhões de anos. A nossa massa física pode ser pequena, mas o nosso impacto é colossal.
Como explicar este paradoxo?
A resposta é simples e inquietante: a inteligência amplifica o poder de uma espécie muito para além da sua dimensão biológica.
Um castor constrói uma barragem.
Uma formiga reorganiza o solo.
Mas o ser humano é a primeira espécie capaz de alterar o clima de um planeta.
A questão que inevitavelmente surge é esta: a Terra tem futuro?
A resposta científica é clara: sim.
A Terra tem cerca de 4,5 mil milhões de anos e continuará a existir durante muito mais tempo. Mesmo que a humanidade desaparecesse amanhã, o planeta continuaria a girar em torno do Sol. A vida já sobreviveu a cinco grandes extinções em massa, incluindo aquela que eliminou os dinossauros há 66 milhões de anos.
A biosfera é extraordinariamente resiliente.
A vida reorganiza-se.
Adapta-se.
Recomeça.
Se a civilização humana desaparecesse, as cidades seriam lentamente conquistadas pela vegetação em poucos séculos. Em alguns milhares de anos, grande parte das nossas marcas desapareceriam da paisagem. Em escalas de tempo geológicas, a natureza reconquistaria o planeta quase por completo.
Isto leva-nos a uma conclusão fundamental, muitas vezes esquecida no debate contemporâneo:
o planeta não precisa da humanidade — mas a humanidade precisa absolutamente do planeta.
O futuro da Terra está praticamente garantido.
O futuro da natureza, também.
O verdadeiro ponto de interrogação é a civilização humana.
A nossa espécie existe há cerca de 300 mil anos, mas a civilização tecnológica que hoje conhecemos tem pouco mais de duzentos anos. Nunca, na história da Terra, uma espécie adquiriu tanto poder num período de tempo tão curto.
Dominar o fogo levou milhares de gerações.
Dominar a energia nuclear levou apenas um século.
A mesma inteligência que nos permite explorar o espaço e compreender o ADN é também capaz de destruir ecossistemas inteiros ou desencadear conflitos devastadores.
Vivemos, portanto, numa espécie de paradoxo evolutivo: somos suficientemente inteligentes para transformar o planeta, mas ainda estamos a aprender a viver com as consequências desse poder.
Talvez a verdadeira maturidade da espécie humana ainda esteja por nascer.
Talvez a história futura da humanidade dependa de uma pergunta simples, mas decisiva: seremos capazes de nos tornar suficientemente sábios para sobreviver à nossa própria inteligência?
A Terra continuará a existir.
Os oceanos continuarão a bater nas costas dos continentes.
As estrelas continuarão a nascer e a morrer no silêncio do cosmos.
A dúvida não é sobre o planeta.
A dúvida é sobre nós.
E talvez seja precisamente essa fragilidade — essa consciência de que somos pequenos num universo imenso — que possa, paradoxalmente, salvar-nos.
Carlos Papafina
O poder não é propriedade: quando a democracia exige saber sair

Opinião: Carlos Papafina
A política só faz sentido enquanto exercício temporário de responsabilidade. O poder, em democracia, não é propriedade pessoal, não é herança, não é carreira vitalícia. É mandato. E um mandato é, por definição, transitório. Quando essa fronteira se dilui, quando alguns titulares de cargos começam a confundir função com posse, instala-se uma das mais perigosas distorções do regime democrático: a captura do poder.
Há um momento subtil — mas decisivo — em que o serviço público deixa de ser serviço e passa a ser permanência. Não se trata apenas de permanecer num cargo; trata-se de moldar estruturas, influências e decisões de modo a garantir que a cadeira nunca fique verdadeiramente vaga. É a lógica do “insubstituível”, do “sem mim nada funciona”, do “o interesse público coincide comigo”.
Este fenómeno não é exclusivo de um partido, de uma região ou de uma ideologia. É transversal. Manifesta-se na manipulação de processos administrativos, na instrumentalização de instituições, na tentativa de controlar sucessões, na pressão sobre estruturas técnicas que deveriam ser autónomas. E, muitas vezes, na utilização do silêncio como estratégia — porque o silêncio também é poder.
O problema não é apenas ético; é estrutural. Quando um responsável político começa a agir como se estivesse acima das regras que regem o Estado, a mensagem transmitida é devastadora: a lei é flexível para quem decide. Ora, o Estado de Direito não admite elasticidades selectivas. As regras existem precisamente para proteger a igualdade e impedir que a autoridade se transforme em privilégio.
A democracia pressupõe alternância. Não por capricho, mas por higiene institucional. A alternância impede a cristalização de redes informais, reduz o risco de promiscuidade entre poder político e interesses instalados e obriga à prestação de contas. Quando alguém tenta eternizar-se numa função, a primeira vítima é a transparência; a segunda, a confiança pública.
Há ainda um elemento psicológico pouco discutido: o medo da irrelevância. Alguns dirigentes parecem desenvolver uma dependência da visibilidade e da influência. O cargo passa a ser identidade. A saída torna-se ameaça existencial. E é nesse momento que se tomam decisões erradas — não em defesa do colectivo, mas da própria continuidade.
O mais grave é quando se usa o discurso da estabilidade como justificação. A estabilidade institucional não se confunde com imobilismo pessoal. Pelo contrário: instituições fortes são aquelas que sobrevivem bem à substituição dos seus líderes. Se uma estrutura colapsa com a saída de um dirigente, então o problema nunca foi a mudança — foi a concentração excessiva de poder.
É também profundamente injusto para quem trabalha nas organizações públicas. Técnicos, funcionários e quadros intermédios que cumprem regras e procedimentos vêem, por vezes, o topo da hierarquia agir com uma margem de interpretação que não lhes é concedida. Essa desigualdade corrói a cultura institucional e alimenta o cinismo.
Numa democracia madura, ninguém é dono do cargo que ocupa. A legitimidade é sempre provisória e depende do respeito pelas normas, pela ética e pelo espírito das instituições. Agarrar-se ao poder não é sinal de força; é sinal de fragilidade. Revela incapacidade de confiar na própria obra e na robustez do sistema.
Os cidadãos não exigem perfeição aos seus representantes. Exigem decência, transparência e respeito pelas regras comuns. Quando esses princípios são relativizados em nome da permanência, a política deixa de ser serviço público e aproxima-se perigosamente de uma lógica de ocupação.
O poder, quando saudável, sabe sair. Quando não sabe, transforma-se em problema. E a democracia, para se manter viva, precisa de líderes que compreendam que o lugar nunca lhes pertenceu verdadeiramente — pertenceu sempre ao Estado e às pessoas.
Neste contexto, a mensagem pública de despedida de Ana Paula Amendoeira, ao terminar funções enquanto responsável pela área da cultura na CCDR Alentejo, merece reflexão. No seu comunicado, sublinhou a importância da comunicação social regional, reconheceu a resiliência dos órgãos locais e assumiu que “não foi possível concretizar muitos sonhos”. Agradeceu colaboradores, parceiros e deixou votos de fortalecimento para a liberdade de imprensa.
É assim que deve funcionar a democracia: com reconhecimento do trabalho feito, consciência do que ficou por fazer e aceitação da transitoriedade das funções. A nobre missão de informar, como escreveu, exige independência, meios e condições. Mas exige também que o poder político saiba respeitar os seus limites, garantindo que a liberdade de informação nunca depende da vontade de quem governa — mas da solidez das instituições.
Se queremos uma comunicação regional forte e uma democracia saudável, o princípio é simples: os cargos passam, as instituições ficam.
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