Internacional
O inverno de Washington e o novo fardamento europeu
A decisão norte-americana de suspender o compromisso climático e o multilateralismo da ONU força a Europa a escolher entre o investimento no futuro ou a paralisia do medo.
Opinião: Carlos Papafina
A ordem executiva assinada em Washington no início deste ano de 2026, que determina a suspensão da participação dos Estados Unidos em dezenas de organismos das Nações Unidas, incluindo o quadro de governação climática, não é apenas um solavanco na diplomacia internacional. É uma rutura estrutural que encerra um ciclo de três décadas de esforço multilateral, ainda que imperfeito, para conter o aquecimento global. Ao retirar-se da mesa de negociações e ao suspender o financiamento a organismos vitais, a maior economia do mundo e o segundo maior emissor histórico de gases com efeito de estufa lança o planeta numa zona de sombra. O facto é que, sem o motor financeiro e político de Washington, o Acordo de Paris e as metas de descarbonização perdem o seu principal garante de execução. O gesto político é claro: o isolacionismo regressou com uma força que já não é meramente retórica, mas administrativa e legal.
Na leitura que faço desta realidade, esta decisão não configura apenas um recuo ambiental; é uma declaração de guerra à ordem global estabelecida no pós-Guerra Fria. Ao normalizar o descompromisso, Washington sinaliza aos restantes grandes emissores — como a China, a Índia ou o Brasil — que as regras de responsabilidade partilhada são agora opcionais. O risco de um efeito dominó é real e imediato. Se o exemplo vem do topo, a tentação para outros governos relaxarem as suas metas nacionais, em nome de uma suposta competitividade económica de curto prazo, torna-se quase irresistível. No meu entender, estamos a assistir à fragmentação da governança global, onde o interesse nacional imediato atropela a sobrevivência coletiva a longo prazo.
A Europa encontra-se, neste cenário, num dilema existencial. Durante anos, o Velho Continente posicionou-se como o farol da transição verde, acreditando que a liderança pelo exemplo arrastaria as outras potências. Agora, Bruxelas vê-se sozinha numa arena onde as regras mudaram. O impacto económico é direto: as empresas europeias, sujeitas a normas ambientais rigorosas e a custos de emissão elevados, enfrentam a concorrência de indústrias norte-americanas que, libertas de amarras climáticas, poderão produzir de forma mais barata e agressiva. Esta assimetria cria uma pressão política interna insustentável, alimentando movimentos que exigem o desmantelamento do Pacto Ecológico Europeu em nome da sobrevivência industrial.
Todavia, o contexto de 2026 acrescenta uma camada de complexidade que não existia em crises anteriores: a reemergência da economia de guerra. A reorganização militar europeia, acelerada pela instabilidade nas fronteiras de Leste e pela incerteza sobre o papel da NATO perante o novo isolacionismo dos EUA, está a drenar os orçamentos públicos. Factos recentes mostram que vários Estados-membros da União Europeia reviram os seus orçamentos de Estado para priorizar a defesa e a segurança interna, muitas vezes à custa de dotações que estavam previstas para a infraestrutura energética verde. A narrativa do “inimigo às portas” é uma ferramenta poderosa que altera a psicologia das populações, movendo o foco do risco climático abstrato para a ameaça militar concreta.
Neste ambiente, a “política de guerra” torna-se o contexto dominante. O medo é um excelente catalisador de prioridades, mas é também um inimigo da transparência. Sob o manto da segurança nacional, decisões orçamentais críticas são tomadas de forma opaca, e o investimento em resiliência climática é frequentemente rotulado como um luxo que o continente não pode agora pagar. O perigo que antevejo é a normalização desta escolha binária — ou armas ou clima —, quando, na verdade, a segurança de um país no século XXI depende tanto da sua autonomia energética e estabilidade climática como do seu poder de fogo. A militarização do discurso político está a asfixiar o debate sobre o futuro do planeta.
Para o cidadão comum, esta turbulência traduz-se em ansiedade quotidiana. A inflação energética, que já era uma ferida aberta, ganha novos contornos com a incerteza sobre os investimentos em energias limpas. Se os governos hesitam na transição, os mercados reagem com volatilidade. O preço da eletricidade, o custo dos bens alimentares afetados por secas extremas e a incerteza sobre o emprego nas indústrias em transformação criam um caldo de cultura para a desconfiança nas instituições. As pessoas sentem que estão a pagar a fatura de um jogo geopolítico que não controlam, onde a segurança parece ser um conceito cada vez mais escasso e caro.
O enfraquecimento dos mecanismos multilaterais da ONU, resultante da retirada norte-americana, deixa também um vazio perigoso na gestão de recursos básicos. Sem uma supervisão global credível, as disputas por água, terras aráveis e minerais críticos para a tecnologia tendem a intensificar-se, podendo degenerar em conflitos regionais. A ciência, através do IPCC e de outros organismos independentes, tem sido clara ao afirmar que a crise climática é um multiplicador de ameaças. Ao ignorar este facto em favor de uma agenda militar clássica, a liderança política ocidental está a tratar os sintomas enquanto permite que a doença se torne incurável.
A nível diplomático, a ausência dos EUA nos fóruns climáticos retira o peso necessário para impor sanções ou incentivos que forcem o cumprimento de metas. A Agência Internacional de Energia (IEA) tem alertado para o facto de que a falta de coordenação global pode levar a um excesso de investimento em combustíveis fósseis que, embora pareçam uma solução rápida para a independência energética, condenarão as economias a ativos obsoletos e a um aquecimento catastrófico. É uma armadilha de curto prazo que a Europa não pode dar-se ao luxo de ignorar.
Perante este quadro, qual deve ser o rumo europeu? Creio que a resposta não passa por mimetizar o isolacionismo americano ou por abandonar as metas verdes em favor de um militarismo cego. A Europa precisa de assumir uma diplomacia climática de resistência, mas que seja simultaneamente pragmática e realista. Isto significa que a transição energética deve ser apresentada e executada como a maior garantia de soberania nacional. Produzir energia em solo europeu, através de fontes renováveis, é uma medida de defesa tão eficaz como o reforço de um batalhão de tanques. A independência energética é a única forma de retirar o poder de chantagem às potências autocráticas.
É fundamental que os governos europeus mantenham a transparência nos seus gastos. A “segurança” não pode ser um cheque em branco que anule o escrutínio público sobre as políticas ambientais. É necessário investir na resiliência das infraestruturas e na adaptação dos territórios, preparando as populações para os impactos climáticos que, de acordo com a Agência Europeia do Ambiente, já são inevitáveis. A defesa da democracia informada é a nossa melhor arma contra o populismo que se alimenta do medo e da desinformação climática.
Proponho, por isso, que a União Europeia lidere a criação de um novo bloco de cooperação climática, que inclua potências regionais e economias emergentes dispostas a manter as regras do jogo. Se os Estados Unidos optaram pela ausência, o resto do mundo deve demonstrar que a economia do século XXI será verde, com ou sem Washington. A liderança não se herda, conquista-se pela persistência e pela capacidade de manter o rumo no meio da tempestade.
Em conclusão, o inverno que chega de Washington não deve congelar as ambições europeias. A história ensina-nos que os momentos de maior incerteza são aqueles em que as decisões mais audazes produzem resultados mais duradouros. Não podemos permitir que o som dos tambores de guerra abafe o clamor de um planeta em agonia. O verdadeiro realismo político hoje consiste em compreender que não haverá nações seguras num mundo climaticamente destruído. A nossa melhor defesa é, e continuará a ser, a coragem de construir um futuro que não dependa da destruição do nosso próprio lar. Seria um erro histórico trocar o oxigénio das próximas gerações pela pólvora do presente. Seria, acima de tudo, uma derrota da inteligência humana.
Garantir que a transição climática continue a ser o eixo central da política europeia, integrando-a na estratégia de segurança e não a tratando como um acessório, é o único caminho para que a Europa não se torne irrelevante num mundo em convulsão. Seria útil que os nossos líderes recordassem que a paz não se mantém apenas com exércitos, mas com a estabilidade de um ecossistema que permita a vida. Seria útil, enfim, que tivéssemos a lucidez de não nos deixarmos cegar pelo medo, porque é no escuro que se perdem as melhores oportunidades de salvação. Seria útil que a Europa fosse, agora mais do que nunca, a Europa.
Desporto
Dia Mundial da Dança celebra o legado de Jean-Georges Noverre e a universalidade desta expressão artística
Celebrou-se na passada quarta-feira, 29 de abril, o Dia Internacional da Dança, data instituída em 1982 pelo Comité Internacional da Dança da UNESCO.
A escolha do dia homenageia o nascimento do coreógrafo francês Jean-Georges Noverre, figura central na história da disciplina e um dos pioneiros da dança moderna.
A comemoração pretende não só recordar o percurso de Noverre, mas sobretudo promover a dança como uma linguagem universal capaz de ultrapassar barreiras políticas, éticas e culturais, unindo pessoas através do movimento e da paixão pela arte.
Internacional
UE mobiliza 32,5 mil milhões de euros para modernizar transportes e ligar regiões remotas através da rede TEN-T
A União Europeia reafirmou o seu compromisso com a conectividade regional ao alocar um montante total de 32,5 mil milhões de euros, dos quais 25,3 mil milhões provêm de fundos europeus, para a conclusão da Rede Transeuropeia de Transportes (TEN-T) no período de 2021-2027.
Esta estratégia visa integrar modos de transporte ferroviário, rodoviário, marítimo e fluvial, ligando grandes cidades e portos para assegurar que a mobilidade seja acessível tanto em centros urbanos como em áreas remotas ou escassamente povoadas.
A dotação financeira representa cerca de 40% de todos os investimentos em transportes da Política de Coesão para este ciclo, priorizando a modernização de infraestruturas em Estados-Membros e regiões com níveis de desenvolvimento abaixo da média europeia.
O investimento divide-se entre a rede central, com conclusão prevista para 2030, e a rede abrangente, que deverá estar finalizada em 2050 para conectar todas as regiões da Europa, sendo que o setor ferroviário é o principal beneficiário, absorvendo 44% dos fundos para projetos que incluem a implementação do Sistema Europeu de Gestão do Tráfego Ferroviário (ERTMS), garantindo que as linhas de passageiros suportem velocidades iguais ou superiores a 160 km/h.
Paralelamente, o setor rodoviário recebe 40% do financiamento, com foco especial na correção de falhas de acessibilidade em países como a Roménia e a Bulgária, onde a infraestrutura ferroviária é menos robusta.
Até fevereiro de 2026, os dados de implementação financeira indicam que, apesar de o orçamento planeado ultrapassar os 33 mil milhões de euros, o montante efetivamente gasto pelos projetos selecionados situa-se nos 12 mil milhões de euros.
Além das metas ambientais de redução de emissões, a política foi recentemente atualizada durante a revisão intercalar de 2025-2026 para incluir a mobilidade militar como uma nova área de intervenção.
Exemplos de sucesso de ciclos anteriores, como a reabilitação da linha ferroviária Plovdiv-Burgas na Bulgária e a construção da autoestrada E81 na Roménia, servem de base para este esforço contínuo de coesão territorial.
Beja
Beja e Santa Catarina reforçam cooperação em missão de inovação regional
Uma delegação brasileira do projeto LIDERE iniciou esta segunda-feira uma visita oficial a Beja para estreitar a colaboração entre o Politécnico (IPBeja), o poder local e instituições de desenvolvimento do Sul do Brasil.
A comitiva, liderada pelo Reitor do Instituto Federal de Santa Catarina e composta por prefeitos e dirigentes empresariais, foi recebida nos Paços do Concelho pelo Presidente da Câmara, Nuno Palma Ferro. O encontro visou consolidar parcerias no âmbito do Laboratório de Inovação em Desenvolvimento Regional e Empreendedorismo (LIDERE), que une a academia à gestão do território para promover a prosperidade económica.
A missão internacional decorre até 30 de abril e inclui uma passagem estratégica pela Ovibeja, onde a delegação marcará presença no espaço “ExpoLages Europa” para potenciar novos negócios e projetos de investigação entre o Alentejo e o estado de Santa Catarina.
Internacional
Ryanair encerra despacho de bagagem 60 minutos antes do voo a partir de novembro
A Ryanair anunciou que, a partir de novembro deste ano, o prazo limite para os passageiros realizarem o check-in no aeroporto ou despacharem bagagem passará a ser de uma hora antes da descolagem.
A companhia aérea justifica esta nova medida com a necessidade de garantir que os passageiros tenham tempo suficiente para ultrapassar as filas de segurança e os controlos de passaportes, minimizando o risco de perda de voos. Para agilizar o processo, a Ryanair prevê ter postos de autoatendimento para bagagem instalados em mais de 95% dos aeroportos até outubro.
Dara Brady, diretora de marketing da Ryanair, esclarece que a medida visa aumentar a pontualidade e reduzir o congestionamento nos balcões físicos e, embora os passageiros percam 20 minutos de flexibilidade à chegada ao aeroporto, a empresa considera que esta folga é essencial para enfrentar o aumento dos tempos de espera nos controlos fronteiriços e de segurança.
-
Alentejo Litoral2 dias agoO Presidente da Câmara Municipal de Grândola recebeu, esta tarde, os alunos da E…
-
Alentejo Litoral3 dias agoAdote um amigo para a vida! No Centro de Recolha Oficial de Animais de Companh…
-
Vila Viçosa3 dias agoHOJE | CAPUCHOS 2026 | PROGRAMA 12 SETEMBRO O Município de Vila Viçosa partilha…
-
Campo Maior2 dias agoA Praça Multimodal de Campo Maior acolhe, de 11 a 13 de setembro, a 3.ª Exposiç…
-
Portugal3 dias ago#ExplorarONorte | Feiras Novas em Ponte de Lima Há festas que guardam a alma de…
-
Alentejo Litoral3 dias agoAmendoeira salvo de afundamento iminente O histórico galeão do sal Amendoeira …
-
Campo Maior2 dias agoDegolados despede-se do verão com o “Bye Bye Summer”, nos dias 11 e 12 de setem…
-
Alentejo Litoral2 dias agoEncontro de Bandas da SFAVA (Calceteira) animou a cidade A música, o convívio …
-
Évora3 dias agoO vereador da Câmara Municipal de Évora, Jerónimo José, esteve presente, esta ta…
-
Alentejo Litoral2 dias agoFestas em Honra de Nossa Senhora dos Navegantes marcaram Carrasqueira A Carras…
-
Alentejo Litoral3 dias agoNota de pesar pelo falecimento de Carlos Faria Faleceu, aos 81 anos, Carlos Ma…
-
Vila Viçosa2 dias ago12.09.2026 | SÁBADO | FESTA DOS CAPUCHOS O Município de Vila Viçosa partilha v…


