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Opinião

Ogivas no século XXI? A retórica perigosa que nos aproxima do abismo

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Há momentos na história em que as palavras pesam tanto quanto os actos. Quando um chefe de Estado europeu admite, ainda que em termos estratégicos, a possibilidade de recorrer a ogivas nucleares para garantir os interesses do seu país, não estamos perante uma simples declaração técnica de dissuasão. Estamos perante um sinal político. E os sinais, em tempos de tensão global, têm consequências.

A França é uma potência nuclear reconhecida, membro permanente do Conselho de Segurança da ONU e pilar central da arquitectura estratégica europeia. A doutrina nuclear francesa sempre assentou na dissuasão — isto é, na ideia de que a posse de armas nucleares evita conflitos porque desencoraja ataques. Mas quando a retórica se torna mais explícita, quando a referência ao uso potencial de ogivas surge associada à defesa de “interesses nacionais”, a linha entre dissuasão e intimidação torna-se perigosamente ténue.

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No século XXI, falar de escalada nuclear deveria soar anacrónico. Depois de Hiroshima, Nagasaki, da crise dos mísseis de Cuba, depois de décadas de tratados de limitação e não proliferação, a humanidade conhece demasiado bem o que está em causa. A guerra nuclear não é uma guerra convencional com consequências ampliadas; é um cenário de devastação irreversível, com impacto climático, económico e humano à escala planetária.

O problema não é apenas o poder destrutivo. É o contexto em que estas declarações surgem. Vivemos uma era de conflitos regionais complexos, de rivalidades energéticas, de disputas por cadeias de abastecimento e por recursos estratégicos — petróleo ontem, terras raras hoje. A geopolítica continua fortemente condicionada pelo controlo de matérias-primas essenciais à indústria, à tecnologia e à transição energética.

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O caso do Irão é paradigmático. Trata-se de um dos maiores produtores de petróleo do mundo, inserido numa região onde a energia sempre foi factor determinante de alianças, intervenções e confrontos. Reduzir o conflito a uma narrativa puramente ideológica seria ingénuo. A energia molda interesses, e os interesses moldam decisões políticas. Mas isso não legitima a escalada.

É verdade que o regime iraniano tem um histórico controverso em matéria de política externa e programa nuclear. É igualmente verdade que o equilíbrio regional é frágil. Porém, transformar disputas estratégicas e energéticas numa retórica de confronto existencial abre portas que depois se tornam difíceis de fechar.

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A Europa, que nasceu das cinzas de duas guerras mundiais, deveria ser o continente da contenção, não da amplificação. A União Europeia construiu-se precisamente sobre a ideia de que o conflito armado entre potências industrializadas era um erro histórico a não repetir. Quando líderes europeus recorrem a uma linguagem que evoca a possibilidade de uso de armamento nuclear, a mensagem simbólica é inquietante.

Há ainda uma dimensão moral. A defesa de “interesses nacionais” é um conceito amplo e, por vezes, maleável. Que interesses justificariam sequer a evocação de uma arma capaz de destruir cidades inteiras? Segurança energética? Influência geopolítica? Competitividade tecnológica? Se aceitarmos que tais objectivos podem, em teoria, enquadrar uma retórica nuclear, estaremos a normalizar o impensável.

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A escalada militar raramente começa com um disparo. Começa com palavras, com posicionamentos, com a construção de narrativas que tornam o confronto aceitável. O mundo contemporâneo é interdependente como nunca foi. Cadeias logísticas globais, mercados financeiros integrados, fluxos digitais permanentes — uma guerra de grande escala não ficaria confinada a uma região. Seria sistémica.

Brincar às guerras num tempo de arsenais nucleares e economias globalizadas é um luxo que a humanidade não pode permitir-se. A competição por combustíveis fósseis ou por terras raras não pode transformar-se num pretexto para uma nova corrida à beira do precipício.

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A verdadeira liderança política mede-se na capacidade de desescalar, de negociar, de conter impulsos e de compreender que o poder absoluto de destruição não é demonstração de força, mas reconhecimento da fragilidade do sistema internacional.

No século XXI, o desafio não é mostrar que se pode usar ogivas. É provar que nunca será necessário sequer evocá-las.

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Carlos Papafina

O algoritmo da indignação: quando as redes sociais lucram com o caos

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Durante anos, muitos suspeitaram do que agora começa a surgir com maior clareza: as grandes plataformas tecnológicas não são apenas intermediárias neutras da informação. São máquinas económicas desenhadas para maximizar atenção — e, muitas vezes, a forma mais eficaz de captar atenção é através do conflito, da indignação e do medo.

Uma recente investigação citada pela BBC voltou a colocar o problema no centro do debate público. Segundo relatos de denunciantes e antigos colaboradores das próprias empresas tecnológicas, plataformas digitais terão permitido deliberadamente a circulação de conteúdos classificados como borderline — materiais que não violam diretamente as regras legais, mas que incluem misoginia, racismo, teorias da conspiração ou desinformação.

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A lógica é simples e profundamente inquietante: esse tipo de conteúdo gera envolvimento.

Quanto mais indignação provoca, mais comentários, partilhas e reações produz. E cada interação é, no fundo, mais tempo passado na plataforma — ou seja, mais receitas publicitárias.

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O algoritmo não quer verdade. Quer atenção.

As grandes plataformas insistem que os seus algoritmos foram concebidos para compreender melhor os interesses dos utilizadores. A narrativa oficial afirma que as redes sociais apenas mostram aquilo que as pessoas querem ver.

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Mas a realidade parece mais complexa.

Os algoritmos não compreendem contexto moral nem verdade factual. Compreendem apenas sinais de comportamento: cliques, comentários, partilhas, tempo de visualização.

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Quando um conteúdo provoca uma reação emocional forte — indignação, medo ou raiva — o sistema interpreta isso como relevância. E promove-o ainda mais.

Assim nasce o que muitos investigadores chamam hoje de economia da indignação.

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Conteúdos conspirativos, vídeos manipulados, teorias absurdas ou mensagens extremistas são frequentemente desenhados precisamente para explorar esse mecanismo. São o chamado ragebait: conteúdos feitos para irritar o público e gerar reações intensas.

E, infelizmente, funcionam.

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A tentação do lucro

Segundo documentos citados na investigação, em 2024 uma parte significativa das receitas de uma das maiores plataformas tecnológicas do mundo terá vindo de anúncios fraudulentos ou associados a produtos proibidos. Estima-se que essa parcela represente cerca de 10% da receita anual, o equivalente a milhares de milhões de dólares.

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O mais preocupante não é apenas a existência desses conteúdos, mas a indicação de que as próprias empresas conhecem o fenómeno.

A pergunta torna-se inevitável: se um sistema gera lucro através de conteúdos problemáticos, que incentivo real existe para o alterar?

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Cortar esse tipo de conteúdo pode significar reduzir engagement. E reduzir engagement pode significar perder receita.

É o clássico dilema entre ética e modelo de negócio.

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Quando a democracia entra na equação

O problema, porém, ultrapassa a esfera individual ou psicológica.

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As redes sociais tornaram-se hoje um dos principais campos de batalha da informação global. Estados, grupos organizados e campanhas de manipulação digital compreendem perfeitamente a lógica dos algoritmos.

Se um conteúdo polarizador gera alcance, então produzir conteúdos polarizadores torna-se uma estratégia política.

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Nos últimos anos, campanhas de desinformação associadas a eleições, crises internacionais ou conflitos geopolíticos demonstraram como os algoritmos podem ser instrumentalizados para amplificar narrativas falsas ou manipuladas.

A consequência é uma erosão gradual da confiança pública.

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Quando as pessoas deixam de distinguir o que é verdadeiro do que é fabricado, a própria ideia de realidade comum começa a fragmentar-se.

O impacto invisível

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Há ainda uma dimensão menos discutida, mas igualmente grave: o impacto psicológico.

Investigadores têm associado o uso intensivo de redes sociais a problemas de concentração, ansiedade, perturbações do sono e aumento de sintomas depressivos, sobretudo entre os mais jovens.

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Num ambiente dominado por estímulos constantes e conteúdos emocionalmente extremos, a capacidade de reflexão crítica tende a diminuir.

O problema não está apenas no conteúdo. Está no sistema que o amplifica.

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A ilusão da neutralidade tecnológica

Durante anos, as grandes empresas tecnológicas defenderam a ideia de que eram meros intermediários — plataformas neutras que apenas hospedavam conteúdo produzido pelos utilizadores.

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Essa narrativa torna-se cada vez mais difícil de sustentar.

Os algoritmos não são neutros. São sistemas desenhados por humanos, com objetivos económicos claros.

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Escolhem o que mostrar, o que amplificar e o que esconder. E essas escolhas moldam o debate público global.

O debate que ainda está por fazer

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Governos e reguladores em várias partes do mundo discutem atualmente novas regras para a moderação de conteúdos online. Mas o debate tende a concentrar-se numa questão difícil de definir: o que exatamente constitui conteúdo prejudicial?

Enquanto essa discussão se arrasta, os algoritmos continuam a funcionar exatamente como foram desenhados.

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A questão talvez devesse ser colocada de outra forma.

Não apenas que conteúdo deve ser removido, mas que tipo de conteúdo os sistemas devem deixar de amplificar.

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Porque o verdadeiro poder das plataformas não está apenas em permitir que algo exista online.

Está em decidir aquilo que milhões de pessoas vão ver primeiro.

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E, neste momento, parece cada vez mais claro que aquilo que os algoritmos promovem nem sempre é aquilo que as sociedades precisam.

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Carlos Papafina

A medida da nossa pequena grandeza

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Há números que têm o poder raro de nos colocar no nosso verdadeiro lugar. Numa época em que a humanidade parece acreditar que domina o planeta — que o transforma, que o altera, que o controla — basta por vezes um cálculo simples para percebermos a dimensão real da nossa presença no chamado “Planeta Azul”.

Desde o aparecimento do Homo sapiens, há cerca de 300 mil anos, estima-se que tenham vivido na Terra aproximadamente 117 mil milhões de seres humanos. Parece um número esmagador. É difícil imaginar uma multidão dessa escala. Mas se fizermos um exercício simples — e profundamente revelador — a nossa perceção muda radicalmente.

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O corpo humano é composto, em média, por cerca de 70% de água. Se reuníssemos toda a água contida nos corpos de todos os homens e mulheres que já nasceram ao longo da história, obteríamos um volume de aproximadamente quatro quilómetros cúbicos de água.

Quatro quilómetros cúbicos.

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É muito? É pouco?

Depende da escala com que olhamos para o mundo.

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Esse volume de água seria suficiente para encher, com alguma aproximação, a albufeira de Alqueva, o maior lago artificial da Europa. Mas não chegaria sequer para um pequeno mar. E se toda essa água fosse despejada no Mar Mediterrâneo, faria subir o nível do mar apenas cerca de dois milímetros.

Dois milímetros.

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A espessura de uma unha.

Este exercício, aparentemente trivial, revela algo profundamente perturbador e, ao mesmo tempo, profundamente libertador: a humanidade, em termos físicos, é quase insignificante no sistema planetário.

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E, no entanto, somos capazes de alterar profundamente o equilíbrio do planeta.

Nos últimos dois séculos — um piscar de olhos na escala geológica — a atividade humana transformou a atmosfera, alterou ecossistemas, provocou extinções de espécies, modificou ciclos naturais que existem há milhões de anos. A nossa massa física pode ser pequena, mas o nosso impacto é colossal.

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Como explicar este paradoxo?

A resposta é simples e inquietante: a inteligência amplifica o poder de uma espécie muito para além da sua dimensão biológica.

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Um castor constrói uma barragem.
Uma formiga reorganiza o solo.
Mas o ser humano é a primeira espécie capaz de alterar o clima de um planeta.

A questão que inevitavelmente surge é esta: a Terra tem futuro?

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A resposta científica é clara: sim.

A Terra tem cerca de 4,5 mil milhões de anos e continuará a existir durante muito mais tempo. Mesmo que a humanidade desaparecesse amanhã, o planeta continuaria a girar em torno do Sol. A vida já sobreviveu a cinco grandes extinções em massa, incluindo aquela que eliminou os dinossauros há 66 milhões de anos.

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A biosfera é extraordinariamente resiliente.

A vida reorganiza-se.

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Adapta-se.

Recomeça.

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Se a civilização humana desaparecesse, as cidades seriam lentamente conquistadas pela vegetação em poucos séculos. Em alguns milhares de anos, grande parte das nossas marcas desapareceriam da paisagem. Em escalas de tempo geológicas, a natureza reconquistaria o planeta quase por completo.

Isto leva-nos a uma conclusão fundamental, muitas vezes esquecida no debate contemporâneo:

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o planeta não precisa da humanidade — mas a humanidade precisa absolutamente do planeta.

O futuro da Terra está praticamente garantido.

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O futuro da natureza, também.

O verdadeiro ponto de interrogação é a civilização humana.

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A nossa espécie existe há cerca de 300 mil anos, mas a civilização tecnológica que hoje conhecemos tem pouco mais de duzentos anos. Nunca, na história da Terra, uma espécie adquiriu tanto poder num período de tempo tão curto.

Dominar o fogo levou milhares de gerações.

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Dominar a energia nuclear levou apenas um século.

A mesma inteligência que nos permite explorar o espaço e compreender o ADN é também capaz de destruir ecossistemas inteiros ou desencadear conflitos devastadores.

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Vivemos, portanto, numa espécie de paradoxo evolutivo: somos suficientemente inteligentes para transformar o planeta, mas ainda estamos a aprender a viver com as consequências desse poder.

Talvez a verdadeira maturidade da espécie humana ainda esteja por nascer.

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Talvez a história futura da humanidade dependa de uma pergunta simples, mas decisiva: seremos capazes de nos tornar suficientemente sábios para sobreviver à nossa própria inteligência?

A Terra continuará a existir.

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Os oceanos continuarão a bater nas costas dos continentes.

As estrelas continuarão a nascer e a morrer no silêncio do cosmos.

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A dúvida não é sobre o planeta.

A dúvida é sobre nós.

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E talvez seja precisamente essa fragilidade — essa consciência de que somos pequenos num universo imenso — que possa, paradoxalmente, salvar-nos.

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Carlos Papafina

O poder não é propriedade: quando a democracia exige saber sair

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Opinião: Carlos Papafina

A política só faz sentido enquanto exercício temporário de responsabilidade. O poder, em democracia, não é propriedade pessoal, não é herança, não é carreira vitalícia. É mandato. E um mandato é, por definição, transitório. Quando essa fronteira se dilui, quando alguns titulares de cargos começam a confundir função com posse, instala-se uma das mais perigosas distorções do regime democrático: a captura do poder.

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Há um momento subtil — mas decisivo — em que o serviço público deixa de ser serviço e passa a ser permanência. Não se trata apenas de permanecer num cargo; trata-se de moldar estruturas, influências e decisões de modo a garantir que a cadeira nunca fique verdadeiramente vaga. É a lógica do “insubstituível”, do “sem mim nada funciona”, do “o interesse público coincide comigo”.

Este fenómeno não é exclusivo de um partido, de uma região ou de uma ideologia. É transversal. Manifesta-se na manipulação de processos administrativos, na instrumentalização de instituições, na tentativa de controlar sucessões, na pressão sobre estruturas técnicas que deveriam ser autónomas. E, muitas vezes, na utilização do silêncio como estratégia — porque o silêncio também é poder.

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O problema não é apenas ético; é estrutural. Quando um responsável político começa a agir como se estivesse acima das regras que regem o Estado, a mensagem transmitida é devastadora: a lei é flexível para quem decide. Ora, o Estado de Direito não admite elasticidades selectivas. As regras existem precisamente para proteger a igualdade e impedir que a autoridade se transforme em privilégio.

A democracia pressupõe alternância. Não por capricho, mas por higiene institucional. A alternância impede a cristalização de redes informais, reduz o risco de promiscuidade entre poder político e interesses instalados e obriga à prestação de contas. Quando alguém tenta eternizar-se numa função, a primeira vítima é a transparência; a segunda, a confiança pública.

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Há ainda um elemento psicológico pouco discutido: o medo da irrelevância. Alguns dirigentes parecem desenvolver uma dependência da visibilidade e da influência. O cargo passa a ser identidade. A saída torna-se ameaça existencial. E é nesse momento que se tomam decisões erradas — não em defesa do colectivo, mas da própria continuidade.

O mais grave é quando se usa o discurso da estabilidade como justificação. A estabilidade institucional não se confunde com imobilismo pessoal. Pelo contrário: instituições fortes são aquelas que sobrevivem bem à substituição dos seus líderes. Se uma estrutura colapsa com a saída de um dirigente, então o problema nunca foi a mudança — foi a concentração excessiva de poder.

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É também profundamente injusto para quem trabalha nas organizações públicas. Técnicos, funcionários e quadros intermédios que cumprem regras e procedimentos vêem, por vezes, o topo da hierarquia agir com uma margem de interpretação que não lhes é concedida. Essa desigualdade corrói a cultura institucional e alimenta o cinismo.

Numa democracia madura, ninguém é dono do cargo que ocupa. A legitimidade é sempre provisória e depende do respeito pelas normas, pela ética e pelo espírito das instituições. Agarrar-se ao poder não é sinal de força; é sinal de fragilidade. Revela incapacidade de confiar na própria obra e na robustez do sistema.

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Os cidadãos não exigem perfeição aos seus representantes. Exigem decência, transparência e respeito pelas regras comuns. Quando esses princípios são relativizados em nome da permanência, a política deixa de ser serviço público e aproxima-se perigosamente de uma lógica de ocupação.

O poder, quando saudável, sabe sair. Quando não sabe, transforma-se em problema. E a democracia, para se manter viva, precisa de líderes que compreendam que o lugar nunca lhes pertenceu verdadeiramente — pertenceu sempre ao Estado e às pessoas.

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Neste contexto, a mensagem pública de despedida de Ana Paula Amendoeira, ao terminar funções enquanto responsável pela área da cultura na CCDR Alentejo, merece reflexão. No seu comunicado, sublinhou a importância da comunicação social regional, reconheceu a resiliência dos órgãos locais e assumiu que “não foi possível concretizar muitos sonhos”. Agradeceu colaboradores, parceiros e deixou votos de fortalecimento para a liberdade de imprensa.

É assim que deve funcionar a democracia: com reconhecimento do trabalho feito, consciência do que ficou por fazer e aceitação da transitoriedade das funções. A nobre missão de informar, como escreveu, exige independência, meios e condições. Mas exige também que o poder político saiba respeitar os seus limites, garantindo que a liberdade de informação nunca depende da vontade de quem governa — mas da solidez das instituições.

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Se queremos uma comunicação regional forte e uma democracia saudável, o princípio é simples: os cargos passam, as instituições ficam.

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Opinião

O ataviar que restou – Uma crónica sobre o brio e o imediato

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Ilustração: Rita Rego

No Alentejo, como em qualquer outro lugar onde a vida não espera por ninguém, o tempo é um recurso que escasseia. Por isso mesmo, o verbo “ataviar” sempre teve um peso especial: não era sobre ter horas de sobra para se olhar ao espelho, mas sobre o brio de arranjar esse tempo no meio da lida.

Hoje, porém, esse ritual de esmero está a sofrer uma mutação. As pessoas continuam a ataviar-se, mas o gesto parece ter perdido a ternura pelo processo para ganhar a eficácia do imediato. A juventude de agora (e incluo-me nela, com a minha própria pressa de quem escreve a olhar para o relógio) não é menos cuidadosa com a imagem; é apenas movida por uma urgência que resolve a apresentação em segundos.

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Há uma agilidade enganadora nesta nova forma de estar. Não é uma mestria ou um domínio sobre o tempo, mas sim de uma habituação a um ritmo que exige prontidão absoluta e respostas instantâneas. O problema não está na velocidade em si, mas na falta de equilíbrio. Quando tudo se torna puramente funcional, o processo (aquele tempo de maturação onde o cuidado se transforma em respeito pelo detalhe) acaba por ser atropelado pela obrigação social com a mesma pressa com que se despacha uma tarefa qualquer, esquecendo-se que o “compor-se” era, acima de tudo, uma forma de dignificar o dia e a própria presença.

Antes, ataviar-se era uma liturgia que ligava a pessoa ao respeito pela sua rua, pela sua gente. Havia um brio quase sagrado em vincar uma camisa ou em “ataviar a casa” para uma visita, como se o tempo gasto nesse cuidado fosse uma moeda de troca para a própria honra. Hoje, essa liturgia foi substituída por uma funcionalidade burocrática. A estética da rapidez, embora vibrante e necessária para acompanhar o ritmo global, corre o risco de deixar o “ataviar” fechado nos baús da memória oral, não por falta de uso, mas porque o ritual exige uma pausa que o quotidiano digital parece já não tolerar.

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Talvez o desafio atual seja precisamente este: encontrar um equilíbrio entre a agilidade dos novos tempos e o brio de quem sabe dar lugar ao tempo. Ataviar-se deveria continuar a ser mais do que um ato mecânico de se vestir. Deveria ser o momento em que paramos para estar, verdadeiramente, à altura da vida que passa lá fora. No fundo, recuperar o sentido profundo do ataviar é resgatar a paciência, lembrando-nos que o bonito é construído com calma e resiliência e tem uma substância que o imediato, por mais brilhante que seja, dificilmente consegue alcançar. É resgatar o brio em estar, em ser, em fazer.

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