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Carlos Papafina

PAC, raça brava e “fundos climáticos”: há desvio ou há ruído?

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Por Carlos Papafina

A polémica reacendeu-se nas últimas semanas. A plataforma Basta de Touradas acusa o Estado de estar a “desviar milhões de euros” de fundos destinados à gestão ambiental e climática para financiar criadores de touros de lide. A expressão é forte. Sugere irregularidade, favorecimento e uso indevido de verbas públicas num momento em que a crise climática exige respostas estruturais.

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Mas a questão central impõe-se: há base factual para falar em desvio?

Uma leitura rigorosa dos diplomas legais e do enquadramento europeu mostra que a narrativa é mais complexa – e menos escandalosa – do que tem sido apresentada.

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O que está realmente em causa

O financiamento referido enquadra-se no Plano Estratégico da Política Agrícola Comum 2023-2027 (PEPAC), instrumento nacional que executa as regras da Política Agrícola Comum da União Europeia.

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No domínio C.1 — Gestão Ambiental e Climática — inclui-se uma intervenção denominada “Manutenção de Raças Autóctones”. Esta medida não foi criada para a raça brava nem para a tauromaquia. Trata-se de um mecanismo europeu antigo, destinado à preservação de recursos genéticos animais.

A classificação das raças autóctones compete à Direção-Geral de Alimentação e Veterinária, enquanto os pagamentos são operacionalizados pelo Instituto de Financiamento da Agricultura e Pescas, no âmbito do Plano Estratégico da Política Agrícola Comum.

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Não existe qualquer referência normativa a espetáculos tauromáquicos como critério de elegibilidade. O critério é técnico: manutenção de efetivos reprodutores de raças autóctones com determinado grau de ameaça genética.

A classificação “em risco”

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Em 2023, a raça bovina brava passou a constar na lista de raças autóctones com grau de ameaça que permite acesso ao apoio de manutenção.

Importa clarificar o significado de “em risco”: trata-se de uma categoria técnica baseada em indicadores populacionais e de variabilidade genética. Não é uma classificação cultural, ética ou política.

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A política agrícola europeia financia a preservação de património genético rural, independentemente da finalidade económica do animal. A mesma lógica aplica-se a raças como a Mirandesa, a Maronesa ou a Barrosã.

Discordar da tauromaquia é legítimo. Mas a elegibilidade para apoio não depende da utilização cultural do animal — depende da sua classificação zootécnica.

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Há desvio de verbas ambientais?

A palavra “desvio” pressupõe ilegalidade ou uso indevido de fundos.

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Até ao momento, não foi apresentada qualquer evidência documental de:

violação das regras da PAC;

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manipulação administrativa;

decisão fora das competências legais da autoridade nacional;

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utilização de verbas para fim diferente do previsto no regulamento.

O eixo “Gestão Ambiental e Climática” da PAC não se limita a políticas de carbono ou energia. Inclui conservação de solos, pastagens extensivas, biodiversidade agrícola e recursos genéticos.

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A manutenção de raças autóctones integra há décadas esse conceito alargado de sustentabilidade rural.

Pode discutir-se se o modelo é o mais adequado. Mas isso é debate político, não prova de fraude.

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Os números avançados

A plataforma ativista estima que os criadores possam receber entre 1,5 e 2 milhões de euros anuais.

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Contudo, esses valores resultam de um cálculo teórico baseado no número total de animais e no valor máximo por cabeça normal. Não correspondem necessariamente à execução real.

Na prática:

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nem todos os animais são elegíveis;

nem todos os criadores apresentam candidatura;

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os pagamentos dependem de validação e controlo;

os montantes variam conforme critérios técnicos.

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Até ao momento, não foi divulgado relatório oficial que confirme o valor global apresentado como facto consumado.

O debate que importa

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O financiamento público da tauromaquia é um tema sensível e merece discussão séria. Há argumentos éticos, culturais e económicos que dividem a sociedade portuguesa.

Mas a crítica política deve assentar em rigor factual.

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Confundir uma medida europeia de conservação genética com um “desvio climático” pode gerar mobilização emocional, mas fragiliza o debate público.

Se o objetivo é questionar o modelo de financiamento da PAC, essa é uma discussão estrutural sobre prioridades agrícolas.

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Se o objetivo é provar irregularidade administrativa, a prova continua por demonstrar.

Conclusão

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Num país onde a confiança nas instituições é frágil, a responsabilidade na comunicação pública é essencial.

A classificação da raça brava foi feita por entidade competente, através de instrumento legal publicado. Os apoios enquadram-se nas regras da PAC aplicáveis a múltiplas raças autóctones. Não há, até prova em contrário, evidência de ilegalidade.

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A divergência é ideológica. A acusação de desvio é jurídica.

E entre uma e outra há uma diferença que importa preservar.

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O debate sobre tauromaquia continuará. Mas deve fazê-lo com dados, não com rótulos.

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Carlos Papafina

A medida da nossa pequena grandeza

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Há números que têm o poder raro de nos colocar no nosso verdadeiro lugar. Numa época em que a humanidade parece acreditar que domina o planeta — que o transforma, que o altera, que o controla — basta por vezes um cálculo simples para percebermos a dimensão real da nossa presença no chamado “Planeta Azul”.

Desde o aparecimento do Homo sapiens, há cerca de 300 mil anos, estima-se que tenham vivido na Terra aproximadamente 117 mil milhões de seres humanos. Parece um número esmagador. É difícil imaginar uma multidão dessa escala. Mas se fizermos um exercício simples — e profundamente revelador — a nossa perceção muda radicalmente.

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O corpo humano é composto, em média, por cerca de 70% de água. Se reuníssemos toda a água contida nos corpos de todos os homens e mulheres que já nasceram ao longo da história, obteríamos um volume de aproximadamente quatro quilómetros cúbicos de água.

Quatro quilómetros cúbicos.

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É muito? É pouco?

Depende da escala com que olhamos para o mundo.

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Esse volume de água seria suficiente para encher, com alguma aproximação, a albufeira de Alqueva, o maior lago artificial da Europa. Mas não chegaria sequer para um pequeno mar. E se toda essa água fosse despejada no Mar Mediterrâneo, faria subir o nível do mar apenas cerca de dois milímetros.

Dois milímetros.

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A espessura de uma unha.

Este exercício, aparentemente trivial, revela algo profundamente perturbador e, ao mesmo tempo, profundamente libertador: a humanidade, em termos físicos, é quase insignificante no sistema planetário.

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E, no entanto, somos capazes de alterar profundamente o equilíbrio do planeta.

Nos últimos dois séculos — um piscar de olhos na escala geológica — a atividade humana transformou a atmosfera, alterou ecossistemas, provocou extinções de espécies, modificou ciclos naturais que existem há milhões de anos. A nossa massa física pode ser pequena, mas o nosso impacto é colossal.

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Como explicar este paradoxo?

A resposta é simples e inquietante: a inteligência amplifica o poder de uma espécie muito para além da sua dimensão biológica.

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Um castor constrói uma barragem.
Uma formiga reorganiza o solo.
Mas o ser humano é a primeira espécie capaz de alterar o clima de um planeta.

A questão que inevitavelmente surge é esta: a Terra tem futuro?

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A resposta científica é clara: sim.

A Terra tem cerca de 4,5 mil milhões de anos e continuará a existir durante muito mais tempo. Mesmo que a humanidade desaparecesse amanhã, o planeta continuaria a girar em torno do Sol. A vida já sobreviveu a cinco grandes extinções em massa, incluindo aquela que eliminou os dinossauros há 66 milhões de anos.

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A biosfera é extraordinariamente resiliente.

A vida reorganiza-se.

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Adapta-se.

Recomeça.

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Se a civilização humana desaparecesse, as cidades seriam lentamente conquistadas pela vegetação em poucos séculos. Em alguns milhares de anos, grande parte das nossas marcas desapareceriam da paisagem. Em escalas de tempo geológicas, a natureza reconquistaria o planeta quase por completo.

Isto leva-nos a uma conclusão fundamental, muitas vezes esquecida no debate contemporâneo:

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o planeta não precisa da humanidade — mas a humanidade precisa absolutamente do planeta.

O futuro da Terra está praticamente garantido.

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O futuro da natureza, também.

O verdadeiro ponto de interrogação é a civilização humana.

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A nossa espécie existe há cerca de 300 mil anos, mas a civilização tecnológica que hoje conhecemos tem pouco mais de duzentos anos. Nunca, na história da Terra, uma espécie adquiriu tanto poder num período de tempo tão curto.

Dominar o fogo levou milhares de gerações.

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Dominar a energia nuclear levou apenas um século.

A mesma inteligência que nos permite explorar o espaço e compreender o ADN é também capaz de destruir ecossistemas inteiros ou desencadear conflitos devastadores.

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Vivemos, portanto, numa espécie de paradoxo evolutivo: somos suficientemente inteligentes para transformar o planeta, mas ainda estamos a aprender a viver com as consequências desse poder.

Talvez a verdadeira maturidade da espécie humana ainda esteja por nascer.

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Talvez a história futura da humanidade dependa de uma pergunta simples, mas decisiva: seremos capazes de nos tornar suficientemente sábios para sobreviver à nossa própria inteligência?

A Terra continuará a existir.

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Os oceanos continuarão a bater nas costas dos continentes.

As estrelas continuarão a nascer e a morrer no silêncio do cosmos.

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A dúvida não é sobre o planeta.

A dúvida é sobre nós.

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E talvez seja precisamente essa fragilidade — essa consciência de que somos pequenos num universo imenso — que possa, paradoxalmente, salvar-nos.

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Carlos Papafina

O poder não é propriedade: quando a democracia exige saber sair

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Opinião: Carlos Papafina

A política só faz sentido enquanto exercício temporário de responsabilidade. O poder, em democracia, não é propriedade pessoal, não é herança, não é carreira vitalícia. É mandato. E um mandato é, por definição, transitório. Quando essa fronteira se dilui, quando alguns titulares de cargos começam a confundir função com posse, instala-se uma das mais perigosas distorções do regime democrático: a captura do poder.

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Há um momento subtil — mas decisivo — em que o serviço público deixa de ser serviço e passa a ser permanência. Não se trata apenas de permanecer num cargo; trata-se de moldar estruturas, influências e decisões de modo a garantir que a cadeira nunca fique verdadeiramente vaga. É a lógica do “insubstituível”, do “sem mim nada funciona”, do “o interesse público coincide comigo”.

Este fenómeno não é exclusivo de um partido, de uma região ou de uma ideologia. É transversal. Manifesta-se na manipulação de processos administrativos, na instrumentalização de instituições, na tentativa de controlar sucessões, na pressão sobre estruturas técnicas que deveriam ser autónomas. E, muitas vezes, na utilização do silêncio como estratégia — porque o silêncio também é poder.

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O problema não é apenas ético; é estrutural. Quando um responsável político começa a agir como se estivesse acima das regras que regem o Estado, a mensagem transmitida é devastadora: a lei é flexível para quem decide. Ora, o Estado de Direito não admite elasticidades selectivas. As regras existem precisamente para proteger a igualdade e impedir que a autoridade se transforme em privilégio.

A democracia pressupõe alternância. Não por capricho, mas por higiene institucional. A alternância impede a cristalização de redes informais, reduz o risco de promiscuidade entre poder político e interesses instalados e obriga à prestação de contas. Quando alguém tenta eternizar-se numa função, a primeira vítima é a transparência; a segunda, a confiança pública.

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Há ainda um elemento psicológico pouco discutido: o medo da irrelevância. Alguns dirigentes parecem desenvolver uma dependência da visibilidade e da influência. O cargo passa a ser identidade. A saída torna-se ameaça existencial. E é nesse momento que se tomam decisões erradas — não em defesa do colectivo, mas da própria continuidade.

O mais grave é quando se usa o discurso da estabilidade como justificação. A estabilidade institucional não se confunde com imobilismo pessoal. Pelo contrário: instituições fortes são aquelas que sobrevivem bem à substituição dos seus líderes. Se uma estrutura colapsa com a saída de um dirigente, então o problema nunca foi a mudança — foi a concentração excessiva de poder.

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É também profundamente injusto para quem trabalha nas organizações públicas. Técnicos, funcionários e quadros intermédios que cumprem regras e procedimentos vêem, por vezes, o topo da hierarquia agir com uma margem de interpretação que não lhes é concedida. Essa desigualdade corrói a cultura institucional e alimenta o cinismo.

Numa democracia madura, ninguém é dono do cargo que ocupa. A legitimidade é sempre provisória e depende do respeito pelas normas, pela ética e pelo espírito das instituições. Agarrar-se ao poder não é sinal de força; é sinal de fragilidade. Revela incapacidade de confiar na própria obra e na robustez do sistema.

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Os cidadãos não exigem perfeição aos seus representantes. Exigem decência, transparência e respeito pelas regras comuns. Quando esses princípios são relativizados em nome da permanência, a política deixa de ser serviço público e aproxima-se perigosamente de uma lógica de ocupação.

O poder, quando saudável, sabe sair. Quando não sabe, transforma-se em problema. E a democracia, para se manter viva, precisa de líderes que compreendam que o lugar nunca lhes pertenceu verdadeiramente — pertenceu sempre ao Estado e às pessoas.

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Neste contexto, a mensagem pública de despedida de Ana Paula Amendoeira, ao terminar funções enquanto responsável pela área da cultura na CCDR Alentejo, merece reflexão. No seu comunicado, sublinhou a importância da comunicação social regional, reconheceu a resiliência dos órgãos locais e assumiu que “não foi possível concretizar muitos sonhos”. Agradeceu colaboradores, parceiros e deixou votos de fortalecimento para a liberdade de imprensa.

É assim que deve funcionar a democracia: com reconhecimento do trabalho feito, consciência do que ficou por fazer e aceitação da transitoriedade das funções. A nobre missão de informar, como escreveu, exige independência, meios e condições. Mas exige também que o poder político saiba respeitar os seus limites, garantindo que a liberdade de informação nunca depende da vontade de quem governa — mas da solidez das instituições.

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Se queremos uma comunicação regional forte e uma democracia saudável, o princípio é simples: os cargos passam, as instituições ficam.

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Carlos Papafina

Entre a Lei e o Ruído: quando a militância distorce o Direito

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Opinião: Carlos Papafina

A recente nota de imprensa divulgada pela plataforma “Basta de Touradas” levanta uma questão que ultrapassa o debate tauromáquico: até que ponto é legítimo utilizar uma interpretação parcial da lei para induzir a opinião pública numa leitura que não corresponde, com rigor, ao enquadramento jurídico português?

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O comunicado em causa invoca o Decreto-Lei n.º 89/2014, de 11 de junho, que aprova o Regulamento do Espetáculo Tauromáquico (RET), sustentando que todas as praças de toiros sujeitas a obras devem obrigatoriamente possuir sala de abate e que o eventual transporte de animais após os espetáculos configurará ilegalidade. A formulação apresentada é perentória, quase acusatória. O problema é que a lei não é um slogan — é um sistema.

O artigo 9.º do diploma citado determina que as praças fixas construídas após a entrada em vigor do decreto ou sujeitas a intervenções que não sejam de mera conservação devem dispor de condições para efetuar, no local, o abate das reses lidadas. Porém, a qualificação jurídica de uma obra — se é ampliação estrutural, adaptação técnica ou simples melhoria funcional — depende de licenciamento, parecer técnico e enquadramento administrativo. Não é uma conclusão automática decretada por uma associação.

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Já o artigo 32.º do RET refere que as reses utilizadas em espetáculos em praças fixas são objeto de occisão imediata em curro, sob supervisão médico-veterinária. A norma não pode ser lida isoladamente nem transformada numa arma retórica. O próprio regulamento prevê enquadramentos distintos consoante a tipologia da praça, o destino da carne e as condições sanitárias existentes.

A plataforma invoca ainda o Regulamento (CE) n.º 1/2005, relativo ao transporte de animais vivos, afirmando que o transporte de animais feridos seria automaticamente ilegal. Mas o regulamento europeu não funciona por dedução militante: a aptidão para transporte é uma avaliação técnica realizada por autoridade veterinária competente. Não se presume. Não se proclama. Determina-se.

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O que está em causa não é a legitimidade da oposição à tauromaquia — numa democracia plural, essa posição é inteiramente legítima. O que está em causa é a tentativa de apresentar como facto consumado aquilo que depende de verificação administrativa e interpretação jurídica qualificada. Quando se substitui o parecer técnico por um comunicado emotivo, corre-se o risco de transformar o debate público num exercício de pressão mediática.

Mais grave ainda é a narrativa implícita de ilegalidade generalizada, sem que exista qualquer decisão formal da IGAC ou da DGAV que confirme tais acusações. Num Estado de Direito, a ilegalidade não se presume — prova-se.

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Portugal reconhece a tauromaquia como manifestação cultural enraizada em determinados territórios, estando a sua prática regulada por lei. Pode discutir-se a sua continuidade, pode propor-se a sua abolição, pode defender-se uma evolução ética da sociedade. O que não é aceitável é fragilizar a liberdade cultural consagrada constitucionalmente através de leituras parciais da legislação.

A liberdade cultural não significa ausência de regras; significa respeito pelas regras existentes. E essas regras são aplicadas por autoridades competentes, não por comunicados de imprensa.

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O debate sobre a tauromaquia merece elevação, não simplificação. Merece argumentos, não insinuações jurídicas. E merece, sobretudo, respeito pelo quadro legal vigente, que não pode ser moldado à medida de agendas, por mais legítimas que estas se considerem.

Num país que se quer maduro democraticamente, a crítica é saudável. A distorção normativa, não.

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Agricultura

O acordo UE–Mercosul e o silêncio cúmplice que ameaça a agricultura portuguesa

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Opinião: Carlos Papafina

Há acordos que se anunciam como oportunidades estratégicas e acabam por revelar-se armadilhas silenciosas. O acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul é um desses casos. Apresentado como um triunfo diplomático, um gesto de abertura ao mundo e uma jogada geopolítica inteligente, este acordo é, na realidade, um sério risco para a agricultura europeia — e, em particular, para a agricultura portuguesa. Mais inquietante ainda do que o conteúdo do acordo é o silêncio quase absoluto de quem deveria estar na linha da frente da sua contestação.

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Portugal assiste, em surdina, a um processo que pode comprometer décadas de esforço na construção de um modelo agrícola baseado na qualidade, na proximidade, na sustentabilidade e na coesão territorial. Enquanto noutros países europeus os agricultores protestam, bloqueiam estradas e forçam o debate político, em Portugal reina uma estranha calma institucional. Um silêncio que não é neutro: é cúmplice.

Concorrência desleal mascarada de livre comércio

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O princípio do acordo é simples e brutal: abrir o mercado europeu a produtos agrícolas provenientes do Brasil, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai — países com escalas de produção incomparáveis às europeias, custos de contexto muito mais baixos e regras ambientais, sanitárias e laborais significativamente menos exigentes.

Comparar um agricultor português, sujeito à Política Agrícola Comum, a normas ambientais rigorosas, a custos elevados de energia, a exigências burocráticas crescentes, com um grande produtor sul-americano é uma ficção económica. Não há concorrência justa quando os pontos de partida são estruturalmente desiguais.

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A carne bovina, os cereais, o açúcar, o etanol ou a soja produzidos no Mercosul entrarão na Europa a preços que os produtores europeus simplesmente não conseguem acompanhar. O resultado é previsível: pressão descendente sobre os preços, inviabilização económica das explorações familiares e abandono progressivo da actividade agrícola em regiões já fragilizadas.

A ilusão das oportunidades de exportação

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Argumenta-se, com frequência, que o acordo abrirá novos mercados para produtos europeus de alto valor acrescentado, como o vinho, o azeite ou os lacticínios. No papel, soa bem. Na realidade, é uma ilusão perigosa.

A maioria dos consumidores dos países do Mercosul não tem poder de compra para absorver, em escala relevante, produtos premium europeus. E mesmo quando existe procura, ela é residual face ao impacto devastador que a entrada massiva de produtos agrícolas sul-americanos terá nos mercados internos europeus.

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Trocar mercados protegidos por promessas vagas de exportação é um mau negócio. E insistir nessa narrativa é, no mínimo, desonesto.

Soberania alimentar: uma palavra vazia?

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Durante anos, políticos, associações agrícolas e instituições públicas falaram de soberania alimentar, de resiliência, de produção local, de território. A pandemia e a guerra na Ucrânia mostraram, de forma clara, os riscos da dependência externa. Ainda assim, quando surge um acordo que aprofunda essa dependência, a reacção é o silêncio.

Onde estão as confederações agrícolas? Onde está a voz firme dos representantes do sector? Onde está o debate sério no Parlamento? A ausência de contestação pública não pode ser explicada por desconhecimento. Só pode ser explicada por acomodação, cálculo político ou medo de confronto com Bruxelas.

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As chamadas “cláusulas de salvaguarda” e os fundos de compensação prometidos pela Comissão Europeia são, na prática, paliativos tardios. Não protegem o agricultor antes da quebra; tentam resgatá-lo depois da falência. Não preservam o território; gerem o seu declínio.

O custo social e territorial do silêncio

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A agricultura portuguesa não é apenas um sector económico. É estrutura social, é identidade cultural, é gestão da paisagem, é fixação de populações. Cada exploração que fecha é mais um pedaço de território que se esvazia, mais um jovem que desiste de ficar, mais uma comunidade que se fragiliza.

Aceitar passivamente um acordo que acelera este processo é abdicar de uma visão estratégica para o país. É transformar o interior num espaço residual, dependente de subsídios e desprovido de futuro produtivo.

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Um debate que tem de existir — agora

O problema do acordo UE–Mercosul não é apenas comercial. É político, social e civilizacional. Que modelo agrícola queremos? Um modelo baseado em volume e preço, ou em qualidade, sustentabilidade e proximidade? Queremos agricultores ou apenas importadores? Queremos soberania alimentar ou dependência estrutural?

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O silêncio português perante este acordo é, talvez, o seu aspecto mais alarmante. Porque quando quem devia falar se cala, a decisão deixa de ser democrática e passa a ser imposta.

Ainda vamos a tempo de exigir debate, transparência e coragem política. Mas isso implica romper com a confortável quietude institucional e assumir que nem todo o “livre comércio” é progresso — e que, às vezes, o verdadeiro cavalo de Troia entra sem fazer barulho.

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