A Faculdade de Medicina (FMUP) e o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS) da Universidade do Porto juntaram-se, no passado dia 9 de abril, na Biblioteca Municipal Almeida Garrett, para a Sessão Comemorativa dos “150 + 50×2 Anos da História das Ciências da Saúde no Porto (1825-2025)”.
A iniciativa, que teve coorganização da Câmara Municipal do Porto (CMP), contou com a participação de personalidades oriundas das duas escolas de Medicina da cidade e evocou os 200 anos do ensino das Ciências da Saúde no Porto. Esta foi uma viagem no tempo para celebrar figuras fundamentais e inspiradoras para várias gerações de médicos e de investigadores nestas áreas.
A abrir oficialmente a sessão, além de Manuel Sobrinho Simões, Professor Emérito da U.Porto, estiveram representantes das instituições de ensino organizadoras.
Pela FMUP, compareceu Francisco Cruz, também Professor Emérito, que se referiu às ligações existentes entre duas escolas de Medicina e à importância de “pensar o passado e o futuro da educação médica” no Porto.
Rui Henrique, em representação do ICBAS, mostrou o seu entusiasmo por se” refletir sobre o passado e o presente das ciências da saúde”, destacando as figuras de Abel Salazar, que dá nome à escola, e de Corino de Andrade e Nuno Grande, dois dos seus fundadores.
Em representação da CMP, Jorge Sobrado considerou “uma alegria” coproduzir esta iniciativa. “O Porto é uma cidade que assenta neste tripé: política, humanismo e ciência”, afirmou o vereador da Cultura da autarquia, observando a existência de uma “afinidade genética entre os interesses das Ciências da Saúde e o domínio das humanidades e das artes”, com destaque para a literatura e a poesia. Ou não fosse o Porto uma cidade de médicos poetas e de médicos escritores.
Uma viagem pela história
A primeira sessão – “A Medicina e a cidade do Porto” – foi protagonizada pelo historiador Joel Cleto, que centrou a sua intervenção na “História dos Hospitais da cidade do Porto”. “O Porto é uma cidade turística, uma cidade universitária, mas é também uma cidade hospitalar”, afirmou, lembrando que a palavra vem de “hospitalidade”.
Com moderação de Luísa Garcia Fernandes, da Associação Divulgadora da Casa-Museu Abel Salazar (ADMAS), o convidado falou sobre as instituições, a começar pelas ordens religiosas e confrarias, responsáveis pela assistência física e espiritual, com referências ao património e à arte. Algumas eram hospitais-albergaria, que exigiam a presença de físicos e boticários, direcionados sobretudo aos peregrinos e viajantes, mas também à população. A Misericórdia assume depois, durante séculos, a missão de assistir os doentes.
“Da Real Escola ao século XXI: Homenagem a Figuras Históricas” foi o título da sessão moderada por Alexandre Quintanilha, com alocuções de José Paulo Andrade, coordenador dos Museus da FMUP, que se focou na figura de Vicente José de Carvalho (1792-1851), cujo coração “repousa” e pode ser visitado no Museu de Anatomia da FMUP, e de Ana Mafalda Reis, do ICBAS, que evidenciou a figura de Corino de Andrade (1906-2005), criador do Serviço de Neurologia do Hospital Santo António e um “homem do renascimento, que marcou a diferença” ao inspirar e promover a liberdade intelectual, notabilizando-se mundialmente por identificar e descrever e paramiloidose.
Alexandra Quintanilha na moderação, Júlio Machado Vaz e Carlos Mota Cardoso ocuparam a segunda parte da conversa, incidindo noutras personalidades da Medicina do Porto, respetivamente Nuno Grande (com quem privou e que marcou gerações como professor, clínico e cidadão) e Júlio de Matos (que marcou o humanismo na assistência aos doentes psiquiátricos no Porto, nomeadamente do Hospital de Conde Ferreira). Na terceira parte, Joana Monjardino evocou o pai, João Monjardino, referência na área da biologia molecular.
Manuel Sobrinho Simões encarregou-se de moderar a mesa seguinte, intitulada “As instituições de investigação e os programas doutorais em Ciências da Saúde”, na qual Mário Barbosa remontou aos primórdios da criação e consolidação das instituições de I&D ligadas à FMUP e ao ICBAS, incluindo, já na atualidade, o RISE-Health, sediado na FMUP. “Atualmente, há uma convergência de instituições, mas também imprevisibilidade no financiamento”, disse. Carla Oliveira e Hélder Maiato falaram, logo a seguir, sobre os programas graduados GABBA e PGDBM, respetivamente.
Na última sessão – “Os Desafios que (ainda) enfrentamos” – Albino Maia, psiquiatra, investigador da Fundação Champalimaud e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, abordou “O normal e o patológico nas neurociências”. A moderação esteve a cargo de José Paulo Andrade, da FMUP, e de Teresa Firmino, editora de Ciência do jornal Público.
“Não pode haver cidades saudáveis sem conhecimento”
A encerrar, Ana Mafalda Reis deu a palavra a Gabriela Queiroz, vereadora da Coesão Social, Saúde e Proteção Civil, Habitação e Recursos Humanos da CMP, que reafirmou que “a cidade tem, de facto, uma ligação muito antiga e singular com a Saúde. Ao ongo destes dois séculos, o ensino e a investigação em Ciências da Saúde cresceram intimamente ligados ao crescimento da cidade, das suas instituições e das suas pessoas, respondendo sempre a necessidades concretas da comunidade”.
Para a responsável, que assumiu a Saúde como “uma prioridade”, esta sessão deve ser, por isso, vista como “uma homenagem às instituições e ao ecossistema científico e académico da Universidade do Porto” e às pessoas que lhes deram corpo e às que continuam a marcar o seu percurso. “Não pode haver cidades saudáveis sem conhecimento, sem inovação, sem cooperação”, concluiu.
Esta iniciativa envolveu ainda o Ipatimup, o Instituto de Investigação e Inovação em Saúde da U.Porto (i3S), a Associação Portuguesa de Casas-Museu e a Associação Divulgadora da Casa-Museu Abel Salazar.